quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 207) As Tábuas de Pinus com nome do meu pai!

Durante muitos anos, meu pai, seu Waldemar, (chamávamos de “Papito”), foi Representante da Cia. De Fumos Santa Cruz em Jaguari-RS. Tinha à pronta entrega, cigarros a serem vendidos para cigarrarias, restaurantes, botecos etc... Num mês qualquer de grande volume de vendas, ele foi premiado Vendedor Milionário! Tratava-se – década de sessenta – resultado de vendas em uma cidade com pouco mais de dez mil habitantes. O fato: - Um milhão de cigarros vendidos! Imenso, espantoso consumo de tabaco!

Vício agora considerado terrível e sempre foi... No entanto nessa época até alguns Médicos recomendavam aos seus pacientes mais nervosinhos, fumar eventualmente um cigarrinho para se acalmar! Que ironia! Para nós, era apenas um negócio regular e permitido como o é até hoje. Os “guris”, e eu era um deles, fumávamos para mostrar que já éramos “homenzinhos”! Depois, adultos pelo mesmo motivo de se mostrar homenzinhos, deixávamos o cigarro.

Esse produto todo era transportado de Santa Cruz do Sul a Jaguari, por trem em caixas de madeira, composto em tábuas de pinus pouco mais de um metro por trinta centímetros de largura, onde cabiam cinquenta mil cigarros. Mais adiante transporte em caixas menores e de papelão. Era uma caixa de madeira frágil, de baixa qualidade, adequada a transporte de pouco peso. Sem boa qualidade para outro aproveitamento. Essas tábuas criavam problema de armazenamento, mesmo desmontadas. O custo a devolver por 255 km, inviável. Diante disso, sempre ao serem pedidas, doávamos com total alegria!

Na face dessas caixas o remetente escrevia com pincéis de tinta preta e letras enormes, o nome do destinatário. Em certa ocasião, uma senhora cliente de cigarros, dona de uma casa de meretrício, popularmente chamada de “Casa na Zona”, de baixo poder aquisitivo, solicitou ao meu pai algumas peças e foi prontamente atendida. Pois não é que a “Dona Piqueri” – esse era seu nome de guerra – utilizou na parte frontal de sua honrosa sede, precisamente aquelas com a inscrição clara e bem posicionada com o nome de Waldemar Diefenbach, meu pai!

Meu velho, era muito conhecido na cidade, (Hoje existe na cidade até um “Largo” – pedacinho de rua - bem arborizado com seu nome). Ele foi três vezes Vereador, uma vez Vice-Prefeito e uma Prefeito. Com aquela exposição, ficou muito vexado! A gozação e divertimento de seus amigos e a Família mesmo, foi demais! Muito engraçado, até o dia de um amigo tomar a iniciativa de ir ao famoso local e dar uma demão de tinta sobre aquela inscrição maldosa! Rimos por muitos anos e me diverte até hoje. “Seu Waldemar” nos deixou há mais de trinta anos rumo a Eternidade!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

 208) Tétrico: - O Caixão de Defuntos.

 

Na minha mais tenra infância, oito anos de idade, década de cinquenta, minha Família Marchiori teve uma perda muito forte pelo óbito, da “tia Lina”! Com apenas trinta e sete anos de idade, ao se queixar de sintomas de uma gripe comum, teve através de injetável de penicilina - época de não se ter cuidados de hoje em evitar antibióticos – o pior, foi aplicada pelo próprio irmão! Choque anafilático, morte súbita!

 A correria, desespero de suas irmãs nem se deram conta da necessidade de proteger as crianças do tétrico evento. Acontecimento ocorreu ao entardecer e foi uma noite inteira de velório na própria residência, comum naqueles tempos. Fiquei indignado de como a Vida é! O cheiro de velas, das flores perfumadas e em especial ao visual do ataúde me impressionaram demais. Se fôssemos “mais modernos” diríamos foi provocado um trauma indelevelmente marcado na criança...

 Foram muitos anos de pesadelos com o visual do Caixão! A memória visual daquele artefato de madeira muito bem trabalhada, permaneceu dando um medo danado, não da morte, pois não tinha maturidade suficiente para tal, mas medo dos mortos ou tudo que me lembrasse “deles”!

 A Vida segue seu rumo e sendo o mais novo dos cinco irmãos, a tarefa de todo entardecer de ir até a padaria, era da minha competência sendo do meu pleno agrado! Claro, vir beliscando o bico daquele pão francês de 500 gramas recém feito, era delícia pura! A caminhada do percurso era de exatamente quatro quarteirões em “L”. Acontece, ao cumprir a ritualística dessa caminhada sempre no mesmo padrão para a ida, no entanto o retorno havia outro itinerário a incluir passagem defronte a uma funerária com seus esquifes à mostra.

 Se ao passar olhasse para aquela assustadora vitrine, na noite o sono era arrastado pelo medo da lembrança do temido Caixão de Defuntos! Então passando pela funerária devia manter olhos para a frente. Entretanto no ponto crítico, paralisava e analisava por longos segundos se olharia “a direita” ou não! Demorava a decidir, mas a idiotice ditava firme, irresoluto: Olhe!

Eu olhava! Pronto. Na noite era aquela bronca para dormir no escuro imaginando aquele mórbido visual. Na cama decidia com a mais absoluta firmeza: “Amanhã não vou olhar!” Pronto. Tudo resolvido.

No dia seguinte, como todo o alemão e sua tradicional teimosia, eu parava naquele ponto estratégico, pensava, analisava os “prós & contras” e decidia: Olhar novamente para afugentar o medo, mas na verdade só o aumentava, pois na hora de dormir, voltava aquela imagem fixa na cabeça! Mas que guri teimoso!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

206) Um Conjunto de Elefantes de Cristal vindos de Murano!


Murano, ilha próxima a Veneza, é acessível por uns vinte a trinta minutos de barco. Conhecida como a “Ilha dos Cristais e Vidros de Veneza.” Faz parte do arquipélago da Lagoa Veneza e cerca de 1,2 km de distância do centro da cidade.

Estive pela segunda vez em 1982 nesse maravilhoso e romântico arquipélago, a cidade de Marco Polo. Marcopolo, notável aventureiro maluco por viagens, como eu! Habitante e grande personagem, viveu naquela ilha em época por volta de 1.278!   

 Nessa viagem em questão, foi minha segunda passada por lá, dentre tantas coisas novas vivenciadas, uma interessante foi a de navegar até Murano em visita a uma fábrica – e são muitas – num programa turístico. Essa se destacava por peças diversas em cristal de extrema delicadeza em suave coloração rosa. Um espetáculo de arte, irresistível às compras mesmo para alguém como eu, acho gastar tempo em compras um desperdício! Respeito o contraditório e chegando de volta em casa, curto as compras, sim!!!

 Fui especialmente atraído por um conjunto, uma manada de sete pequenos elefantes lindíssima, de uma singeleza única. Como coleciono peças desse paquiderme, do mais variado tipo de material e origem, fico vulnerável às compras! Minha coleção já soma perto de uma centena de peças. Aqui,  comprei sem perguntar o preço (algo extremamente arriscado na Região) dois conjuntos na intenção de presentear minha madrinha de casamento, também colecionadora desse curioso “animal tão narigudo!” Já na compra enviei cartão postal da ilha contando: “Estou levando elefantes”...

 Paguei em dinheiro. Época onde não tínhamos no Brasil um cartão de crédito internacional. Paguei convicto e fiz severa recomendação na embalagem adequada, pois viajaria ao Brasil, depois de muitos dias transitando pela Europa e por óbvio, fazia questão absoluta de sua integridade física. Também não me importava com o custo dessa tão reforçada embalagem. Minha faceirice com a compra me convertera num notável “otário”!

 Três semanas depois, chegando em casa, com aquele pacotão envolto em muitas folhas de jornal, plástico acolchoado e por maior segurança ainda, enrolado nas tradicionais roupas sujas voltando para casa. Abro o pacote com um sorriso de felicidade de deixar até os “molares” a vista! Pois no pacote, muito bem embalado estava apenas uma peça de um objeto em vidro. Não se distinguia se era mesmo um elefante, talvez um cachorro ou simplesmente um retalho, um bloco inexpressivo de vidro derretido... 

Ódio ardente pulsou no coração desse italiano que escreve! senti-me o maior idiota, enganado por aquele vendedor de “cristais” safado!

Vontade suprema: Não fosse a responsabilidade de poupar e manter aqueles meus dentes molares recém exibidos de alegria, foi do desejo de mastigar aquela imensa peça idiota. Tantas horas de voo carregando no colo com esmero e carinho na bagagem de mão para agora... Aquela merda estranha sem nenhum valor! Joguei fora no próprio aeroporto.

Em outra crônica, já escrevi indignado o comportamento de vendedores vigaristas de rua na Bahia e outra na Jamaica. Mas ser logrado em uma elegante loja, fábrica de cristais, aí já foi demais! Posso recomendar alguma coisa???

 Sei que o turismo de rua é, em especial os movimentado livres pelas ruas e pelo volume de vendas gerados, há um alto percentual de turistas que só se sentem de fato turistas quando envolto em pacotes e mais pacotes de mercadorias compradas em suas viagem ao Exterior, com orgulho de ser material importado pelo próprio viajante!

 Queria muito contar essa história ao meu avô materno, Andrea Marchiori, vindo da Itália criança e afirmar: Em viagem à Itália, não compro mais nada. “PUNTO E BASTA”!