quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

 208) Tétrico: - O Caixão de Defuntos.

 

Na minha mais tenra infância, oito anos de idade, década de cinquenta, minha Família Marchiori teve uma perda muito forte pelo óbito, da “tia Lina”! Com apenas trinta e sete anos de idade, ao se queixar de sintomas de uma gripe comum, teve através de injetável de penicilina - época de não se ter cuidados de hoje em evitar antibióticos – o pior, foi aplicada pelo próprio irmão! Choque anafilático, morte súbita!

 A correria, desespero de suas irmãs nem se deram conta da necessidade de proteger as crianças do tétrico evento. Acontecimento ocorreu ao entardecer e foi uma noite inteira de velório na própria residência, comum naqueles tempos. Fiquei indignado de como a Vida é! O cheiro de velas, das flores perfumadas e em especial ao visual do ataúde me impressionaram demais. Se fôssemos “mais modernos” diríamos foi provocado um trauma indelevelmente marcado na criança...

 Foram muitos anos de pesadelos com o visual do Caixão! A memória visual daquele artefato de madeira muito bem trabalhada, permaneceu dando um medo danado, não da morte, pois não tinha maturidade suficiente para tal, mas medo dos mortos ou tudo que me lembrasse “deles”!

 A Vida segue seu rumo e sendo o mais novo dos cinco irmãos, a tarefa de todo entardecer de ir até a padaria, era da minha competência sendo do meu pleno agrado! Claro, vir beliscando o bico daquele pão francês de 500 gramas recém feito, era delícia pura! A caminhada do percurso era de exatamente quatro quarteirões em “L”. Acontece, ao cumprir a ritualística dessa caminhada sempre no mesmo padrão para a ida, no entanto o retorno havia outro itinerário a incluir passagem defronte a uma funerária com seus esquifes à mostra.

 Se ao passar olhasse para aquela assustadora vitrine, na noite o sono era arrastado pelo medo da lembrança do temido Caixão de Defuntos! Então passando pela funerária devia manter olhos para a frente. Entretanto no ponto crítico, paralisava e analisava por longos segundos se olharia “a direita” ou não! Demorava a decidir, mas a idiotice ditava firme, irresoluto: Olhe!

Eu olhava! Pronto. Na noite era aquela bronca para dormir no escuro imaginando aquele mórbido visual. Na cama decidia com a mais absoluta firmeza: “Amanhã não vou olhar!” Pronto. Tudo resolvido.

No dia seguinte, como todo o alemão e sua tradicional teimosia, eu parava naquele ponto estratégico, pensava, analisava os “prós & contras” e decidia: Olhar novamente para afugentar o medo, mas na verdade só o aumentava, pois na hora de dormir, voltava aquela imagem fixa na cabeça! Mas que guri teimoso!

12 comentários:

  1. Fiz esse caminho contigo... Conheço esse endereço.
    Era hábito nessa época velar os familiares em casa , tbm fiquei com essa imagem na minha mente no velório de meu pai mas nunca tive medo. Abração primo!

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  2. O que nós crianças sofremos no início da vida. Para ficarmos maduros...

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  3. Era bem assim .todos participavam desses momentos.

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  4. O primeiro velório ou primeiro contato com a morte deixa o imaginário mais ativo, ainda mais na primeira infância. Pobres crianças!!!

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  5. É traumatizante mesmo ver uma pessoa morta no caixão. Minha mãe nunca deixou em participar de velório quando criança.

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  6. Perfeita narrativa de algo que sempre assombrou grande parte de nossa geração querido Fausto. Como és um escritor criterioso e sábio certamente evitas nominal pessoas, a não ser que previamente consultadas, mas eu como seu leitor e "metido", digo que a padaria devia ser a do seu Luiz Contrato, e a funerária do Sr. Ernest Ludwig...Forte Abraço Mano

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  7. Acho que criança não deve participar nunca.

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  8. Criança é assim mesmo... levada pelo desafio e medo...

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  9. Maravilha o sentimento do guri.

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  10. Em nossa época, não se explicava a morte, nem os procedimentos. Minha primeira experiência, foi com o meu avô Pedro. Quando adentrei na sala mortuária, o primeiro choque. Meu pai aos prantos. Sentei timidamente ao seu lado até a hora do encerramento. E foi aí o susto maior. Meu pai disse que podia beijar a testa dele como despedida. Nossa! o contato dos meus lábios na testa gelada me impressionou por demais.Levei anos para encarar com naturalidade a morte de entra queridos.

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