quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 212) Firenze, parada de luxo para fazer xixi!

 Em Lua-de-mel, viajamos para o Norte da Itália a viver um pouco o clima das minhas origens italianas. Na chegada em Milão aluguei um carro japonês para fazer o primeiro passeio ao Lago Como, de beleza deslumbrante! Próximo à fronteira com Áustria e Suíça, é de um visual Alpino espetacular e mesmo em dia de chuva – foi o caso - é glorioso! Melhor ainda sendo coroado com uma parada em restaurante de beira de estrada, com um serviço de comida típica caseira da Região! Maravilhosa! Por estar dirigindo, tomei apenas um “bicchiere di vino”!

 A beira do Lago, vale declamar: - “Anni, amori e bicchieri di vino non si cotano mai!” Traduzindo: - Anos, amores e taças de vinho nunca devem ser contados! Contexto Cultural: Segredo para a felicidade sugerindo se aproveitar a vida sem se preocupar com idade, relações ou a quantidade de vinho apreciado!

 A noite encerramos em Milão com a mundialmente apreciada pizza! Aí sim, com o direito a mais vinho, se comparado ao almoço! São duas de três das coisas a considerar obrigação na Itália: O vinho e pizza. A outra, totalmente por minha conta é o tomate! Não saia da Itália sem comer tomates vermelhos, maduros. (Recomendei a cor, por mais idiota que pareça, porque lá encontrei um tomate preto! Casca, mesmo macia, num tom bem escuro de um “quase” preto...) - Compre na feira, supermercado, sei lá e leve para o quarto - dá um jeito de ter um saleiro disponível - se não tiver tomate no cardápio do restaurante de sua escolha, reclame! Apenas um pouco de sal e se delicie da melhor fruta existente no Planeta! Exagerei? Absolutamente! Vai lá e experimente!

 Na sequência, em direção a Florença tem uma boa estrada cruzando por Placência, Parma, Módena chegamos a entrada da cidade destino. Auto estrada onde a velocidade me pareceu livre! Abusei do acelerador? Sim. Se o trem faz em menos de duas horas, me achei no direito de fazer parecido... A parte crítica dessa viagem, aconteceu exclusivamente comigo, por não haver nenhum posto de gasolina ou algo semelhante para uma paradinha estratégica para ir ao banheiro. Lamentável. O desjejum havia sido com frutas e suco. (Claro, com tomates!) Antes da metade da viagem, forte necessidade de ir a um banheiro. E lá não existe! E agora? No hotel no final da viagem? Não vou aguentar. Terei uma “explosão bexigana”!

Ao entrar na cidade, eu estava roxo, lagrimando. Lágrimas eram de urina – eu acho – e o desespero tomou conta de todos possíveis pensamentos. Minha mente produzia delírios com mictório, vaso sanitário, penico, campo aberto e assemelhados! O sofrimento me fez criativo. Ou nem tanto... Rodando nas avenidas da cidade, em uma das avenidas bem movimentadas, estacionado em oblíquo com meu pequeno March da Nissan, porta aberta a improvisar uma cortina, sentei no meio fio da calçada, mãos trêmulas, preparei o dispositivo à finalidade proposta e me “esvaí” em urina!

 Sei, parece exagero escrever sobre uma necessidade fisiológica básica, algo tão simples e corriqueiro transformado em um evento inesquecível! Levem em consideração a me desculpar, pois lá se vão quinze anos desse fato e tenho ele nítido na memória, e não é memória afetiva, apesar de ocorrer durante uma lua-de-mel! Todo o acontecimento e situação vivenciada durante o percurso e a expectativa de encontrar um banheiro público, tornou-se assim tão especial. Uma Memorável Mijada! 

 Espero não ser excluído do sistema, penalizado pela censura na divulgação da minha Crônica nesse blog. Seria lamentável retirar da história um momento tão marcante desse humilde escritor!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 211) É desconcertante o olhar dado a um cadeirante!

Sim. Fui cadeirante por algum tempo! Foi um período de meses enquanto convalescente por múltiplas fraturas em dois fêmures mais o calcanhar direito. Resultado de um acidente já tratado em crônicas aqui publicadas, historiando mais de trezentos saltos de para-quedas. Apesar do acidente tão importante, não foi ele a decretar o fim da atividade. Teimosamente após a recuperação física, voltei a saltar por mais uns trinta e poucos saltos!

Evidente é ser a hospitalização – por três semanas - um período de séria ameaça às crises de depressão. O velho e conhecido Prozac (nome comercial da fluoxetina) resolveu esse período de forma muito eficiente somado a um incrível apoio da Família e Amigos. Eles não me deixaram um dia sequer solitário a mergulhar na tristeza! Quarto do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre esteve sempre cheio de visitas a me alegrar o tempo todo! Parece ironia. Não é. Eu vivia momentos de grande alegria, tamanho o carinho sentido por tantos queridos visitantes!                                                                   

Depois da alta um período longo de recuperação em casa e mais adiante as primeiras movimentações fora da cama. Depois da cadeira-de-rodas o andar com as muletas, bengalas etc. Obviamente fisioterapia por mais de ano com “dedicação furiosa” de minha parte. Acreditava – e merecia o crédito – na recuperação e o voltar a caminhar normalmente como nós merecemos, sem dores e desequilíbrios!

Um dia, ainda em cadeira-de-rodas, pálido, magérrimo tomava um pouco de sol no pátio de casa, quando ao passar pelo bairro meu amigo Jorge, resolveu me visitar, entretanto, não sabia do acidente. Adentrou, acompanhado da minha cuidadora exclamando:

 - Olha Fausto: - O Jorge! Lembra dele?

Por uns vinte metros Jorge caminhou em minha direção sorrindo com um “olhar exclamando” pena, dúvidas e um indescritível sentimento de dó! Mistura e confusão mental a imaginar um provável derrame cerebral e muitos outros fatos e coisas ruins! Quando respondi com voz vigorosa – pelo menos isso eu tinha – e depois ele confessou do “alívio” ao perceber, tudo não passava de danos físicos no meu corpo, nada no cérebro ou cabeça, como se diz popularmente! Afinal de contas, concertar ossos quebrados é só uma questão de boa reposição em seus lugares certos, fazer emendas e aguardar o tempo passar. “Só” isso!

Mais adiante, ainda em cadeira-de-rodas, sai a passear. Fui ao cinema, no Dado Bier comer um sushi e muitas vezes ao supermercado, sempre acompanhado. O doloroso, era ser alvo de olhares de desconhecidos inclusive, com dó, piedade. De fato, só vivenciando essa experiência se pode conhecer o que é isso... O olhar com pena de estranhos é tão doloroso a se tornar inesquecível! Sente-se uma vontade imensa de chamar a pessoa e explicar o acontecido: “Não se preocupe, eu vou ficar bem logo, acreditem! Mas não dá! Fica a marca da piedade no coração e não tem como se livrar disso, por anos!

O resumo da ópera, fica em ter certeza de tudo ser um aprendizado embora especialmente doloroso. É exatamente isso, a dor a construir uma aula de Vida. Certamente me tornei melhor, conheci a profundidade do ferimento ao ser atingidos pela humildade enquanto deficiente. Carrega-se no coração a convicção de quão fraco e vulnerável somos. A Existência é presa apenas por um fio tênue, frágil e tudo pode acontecer.

Então, “Carpen Diem”! Expressão em Latim dizendo colha o dia, mais comumente, aproveite o dia! Convite a manter ativo em nossa mente o viver com intensidade o presente e suas oportunidades. Temos um futuro incerto e uma Vida muito curta! Essa alerta do Carpen Diem, foi cunhada pelo poeta romano Horácio (século I a.C.) e é um chamado a desfrutar o agora sem adiar a felicidade e nem confiar cegamente no amanhã! Lembrete para não se preocupar demais com o futuro e focar no feito e desfrutado de hoje!

Quem tiver fé na existência do Criador, seguramente viverá melhor mergulhando seus dias na esperança de Salvação e Vida junto ao Eterno!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 210) E o Tshuntshu Fugiu. Sabiá esperto!

 “Meu Velho”, já referido na Crônica 207, dentre tantos hábitos de seu dia-a-dia, um deles era o de criar em cativeiro faisões, perdizes e teve até um sabiá. Era comum na cidade pessoas levarem a ele alguma ave ou pássaro ferido para ele cuidar e adotá-lo. Um deles foi o tal sabiá de nome Tshuntshu – não faço a menor ideia de onde veio esse nome -  fácil ao pronunciar, mas difícil convertê-lo em letras do nosso alfabeto.

 Mantido em uma gaiola tradicional, era alimentado com alguma ração qualquer, mas meu Pai fazia questão de todo dia levar uma “proteína” ao empenado pássaro. Descobrimos mais tarde ser “um sabiá fake”. Era UMA sabiá, pois não cantava, recurso exclusivo ao pássaro macho. Pequenas lascas de carne e até mesmo algumas minhocas lhes eram oferecidas diretamente no bico. Até algum momento, encorajado comia na palma da mão...

 A Eni, nossa secretária, se encarregava da limpeza diária de seus aposentos até o dia de ouvirmos sua gritaria histérica: “O Tshuntshu fugiu!” O lamento foi geral e as acusações de descuido engrossaram o dia! Houve “suspeita de facilitação de fuga” – tão normal no noticiário das nossas penitenciárias de hoje em dia – mas negado peremptoriamente pela acusada. A Família ficou triste, pois havia muito afeto envolvido nessa relação ornitológica tão profunda!

 Não teve sequer dois dias de tristeza! Tshuntshu retorna voluntariamente ao seu cativeiro, aguardando sua alimentação! Eni correu e fechou a gaiola para se apresentar como heroína da captura do estimado sabiá! Nessas alturas dos acontecimentos, ela já perdoada, mas como em todas histórias do crime, reincidiu e lá se foi em fuga novamente, o tão estimado sabiá!

 Num período ainda menor do anterior, Tshuntshu volta à sua casa e vejam, nem chamo mais de cativeiro, pois desse momento em diante, não se trancou mais a gaiola e a liberdade do ir e vir SEM tornozeleira foi decretado. Livre, leve e solto ficou atrevido e passou a circular o interior da casa, sem o menor constrangimento, certamente se considerando da Família! Sua primeira incursão do dia era no ombro do meu pai enquanto se barbeava e ficava brabo se o seu apoio – o ombro – se mexesse demais. Gritava histericamente!

 Não sei avaliar quanto tempo houve esse belo e harmonioso convívio “entre nós”. Entretanto aconteceu um novo período de desaparecimento, abandonou novamente a gaiola, ou melhor, sua casinha gradeada e depois descobrimos sua transferência a um pé de Camélias e ali construiu seu ninho. Foi quando descobrimos seu verdadeiro sexo: Feminino! Eu já suspeitava ser fêmea, pois enquanto foi livre revoando no interior da casa, pousava sempre defronte a algum espelho...

 Na sequência colocou ovos, chocou e deu a luz a um lindo menino, ou melhor, um lindo sabiazinho! Um lindo, na verdade bem feinho, sem penas e com aquele bico amarelo a pedir comida insaciavelmente! E fomos felizes para sempre!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 209) Intuição ou Premunição?

 

A principal diferença entre uma e outra, diz ser a Intuição o conhecimento instintivo vindo do raciocínio na absorção de padrões. Premonição, aviso antecipado: - “Vai acontecer algo!” É como uma visão futura ou presságio.

Essa descrição encontrada facilmente no Google, pouco ajuda se dependermos dela para tomada de decisão. Realmente importa é sabermos interpretá-la, acreditar e principalmente obedecê-la sem, contudo, se converter num “medroso de carteirinha”, temendo a tudo e acaba evitando riscos sim, mas neuroticamente. Fica doloroso. Todos nós sabemos, o risco faz parte da Vida e a torna muitas vezes, mais atraente a nos permitir um melhor saborear das boas vitórias do nosso dia-a-dia!

Já contei aqui, sobre um acidente de para-quedismo onde fui envolvido gravemente, em setembro de 1999. Éramos um grupo de amigos a celebrar a alegria de um salto festivo programado a fazê-lo no Estádio Olímpico do Grêmio Futebol Porto Alegrense, quinze minutos antes de um Gre-nal pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, o “Brasileirão”! Erros de percurso cometidos, resultaram num grave acidente próximo ao momento do pouso, que por detalhe não me custou a vida.

Me deu muito trabalho: - Alocação de aeronave, licença junto a Aeronáutica com o NOTAN (Notificação de Tráfego Aéreo Nacional) aprovado, licença da CBF para estar dentro do campo de jogo minutos antes da partida e permissão do Clube. Eu era Diretor de Marketing o que facilitou essa última e decisiva etapa. Como diz na gíria, “tudo nos conformes” e era só aguardar nervosamente o dia e hora desse voo fantástico! Isso veio a acontecer num belo e ensolarado domingo de Primavera!

Ás vésperas, dois dos atletas, meus amigos mais próximos e por afeição nos reunimos na minha casa para um jantar e conversar sobre a alegre aventura em andamento. Padado e Vídeo – seus apelidos na Área de salto - mais nossas namoradas e esposa, estivemos ao redor da churrasqueira assando uma carne a conversar entusiasmadamente em plena euforia, própria ao que faríamos dali dois dias...

Curiosamente essa alegria não foi duradoura. Em mum dado momento, Padado suspirou e saio para a toalete e a partir daquele momento a alegria murchou em nossos corações. A tristeza inexplicavelmente entrou pela noite adentro. Tudo foi ficou sombrio, rostos se fecharam e caímos num silêncio melancólico. Encerramos o jantar nesse decadente estado de espírito!

Tudo “aquilo” depois bem interpretado, era intuição nos chamando atenção dos riscos acima do aceitável, merecendo uma concentração quase profissional daquele ato, longe de um simples movimento de laser, exigia uma postura especialmente por mim, bem mais séria. Eu detinha o menor número de saltos, menor experiência, portanto. Atitude séria e isenta de distrações infantis seriamente cometidas, pelo encantamento – natural as navegações aéreas – merecia atenção muito mais acurada!

Tempos depois, todas as feridas curadas, ossos calcificados proporcionados pelo malfadado salto, com aquele acidente grave no meu pouso crivado de pequenos erros de navegação e pouso quando por detalhe não me levou a morte, me veio a memória aqueles momentos de súbita tristeza invadida nos nossos corações de forma estranha, mas inapelável!

Era o aviso: “Não vai Fausto”! Não quis escutar. Teimoso num misto de orgulho com soberba, paguei o preço bem caro em pesadas prestações de vinte e dois dias de hospitalização e cinco cirurgias bem significativas! Aprendemos muito até os cinquenta anos e depois devemos passar a obedecer aos alertas finalmente visíveis a nossa frente!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 208) Pedido do Gordo: O Destino de Suas Cinzas!


O Gordo, Luis Emílio Sesti Motta, foi o amigo mais antigo, de maior longevidade. Neto de fazendeiro em Jaguari, menino voluntarioso me ajudou quando nos conhecemos no encerramento do velório da tia Lina, quando fui encarregado a devolver à funerária os pertences com castiçais etc. época dos velórios serem feitos na residência do falecido.

Eu tinha oito anos e ele cinco e a amizade só acabou, há sete anos com seu óbito! Foram sessenta anos de uma amizade onde nos separamos raramente e só no plano geográfico, por necessidades profissionais ao trocar de cidade. Ele, como eu, tivemos dois casamentos e em ambos fui seu Padrinho, bem como ele foi meu Padrinho nos dois. Foi também o amigo a me apresentar a “atual” esposa, a Elaine!

Pois o Gordo era um dos componentes do “The Crasies Club”, fundado há sessenta anos que nunca admitiu novos sócios. Nunca teve interessado a se candidatar..! Permaneceram os seis guris, da nossa Terra Natal, da adolescência até ter nele o segundo óbito, em seis de seus sócios. A tristeza encerrou nossos três encontros anuais com até então, com absoluta regularidade.

Ele era um “Colorado Fanático” e eu da oposição Tricolor. Tínhamos um pacto de sangue de jamais discutir futebol. Esse respeito mútuo e inarredável reforçava os laços entre nós! Um respeito imposto naturalmente, saudável a preservar amizade  sempre recomendável, especialmente no Rio Grande do Sul onde a “rixa” entre esses dois clubes é imensa! Todos sabemos, discutir esporte, política e religião, é uma bobagem infantil, jamais fortalece relações...

Ele um constante gozador debochado, me pregou a peça derradeira nessa rivalidade Grenalizada. Sem chance de eu me vingar no futuro. Quando ele soube de sua enfermidade letal, decidiu sua cremação e distribuição das cinzas em diversos lugares. Curtia estar em muitos lugares ao mesmo tempo a “pegar no pé” de um ou de outro. Pois me designou a levar uma parte de suas cinzas precisamente ao Estádio Beira Rio, estádio do meu maior rival!  Tínhamos nossas convicções de jamais visitar o estádio de futebol do nosso arquirrival... Ele por safadeza me deixou essa incumbência. Obrigatoriamente cumprida por mim! Não sei se do Eterno, as Almas nos veem aqui nesse Plano. Caso afirmativo, imagino ele rindo de mim as gargalhadas, enquanto eu, em pleno estádio do meu adversário, distribuindo suas derradeiras cinzas! Brincalhão safado, mesmo depois de morto!

Amigos! Ah os Amigos! Valem ouro e deixam uma saudade imensa quando se vão! Se eu tivesse autoridade para dar conselho, esse seria um dos primeiros: - "Tenha e mantenha muitos amigos. Amizade, eu reforço, com contato, presença física com direito ao abraço. É muito fria a amizade moderna restrita a um contato eletrônico sem o aperto entre corpos. Nada substitui o aperto de mão, o abraço e até um beijo!

Um telefonema, um whats é bom, mas dado a celeridade das nossas vidas, se torna muito pouco! Ouvi de um amigo, conterrâneo, R. Bernardi: “Tens visitado teus velhos?” Sim! A cada sessenta dias! “É pouco!” Respondeu convicto! Depois de perder meus pais, lhe dei plena razão, mas já era tarde!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 207) As Tábuas de Pinus com nome do meu pai!

Durante muitos anos, meu pai, seu Waldemar, (chamávamos de “Papito”), foi Representante da Cia. De Fumos Santa Cruz em Jaguari-RS. Tinha à pronta entrega, cigarros a serem vendidos para cigarrarias, restaurantes, botecos etc... Num mês qualquer de grande volume de vendas, ele foi premiado Vendedor Milionário! Tratava-se – década de sessenta – resultado de vendas em uma cidade com pouco mais de dez mil habitantes. O fato: - Um milhão de cigarros vendidos! Imenso, espantoso consumo de tabaco!

Vício agora considerado terrível e sempre foi... No entanto nessa época até alguns Médicos recomendavam aos seus pacientes mais nervosinhos, fumar eventualmente um cigarrinho para se acalmar! Que ironia! Para nós, era apenas um negócio regular e permitido como o é até hoje. Os “guris”, e eu era um deles, fumávamos para mostrar que já éramos “homenzinhos”! Depois, adultos pelo mesmo motivo de se mostrar homenzinhos, deixávamos o cigarro.

Esse produto todo era transportado de Santa Cruz do Sul a Jaguari, por trem em caixas de madeira, composto em tábuas de pinus pouco mais de um metro por trinta centímetros de largura, onde cabiam cinquenta mil cigarros. Mais adiante transporte em caixas menores e de papelão. Era uma caixa de madeira frágil, de baixa qualidade, adequada a transporte de pouco peso. Sem boa qualidade para outro aproveitamento. Essas tábuas criavam problema de armazenamento, mesmo desmontadas. O custo a devolver por 255 km, inviável. Diante disso, sempre ao serem pedidas, doávamos com total alegria!

Na face dessas caixas o remetente escrevia com pincéis de tinta preta e letras enormes, o nome do destinatário. Em certa ocasião, uma senhora cliente de cigarros, dona de uma casa de meretrício, popularmente chamada de “Casa na Zona”, de baixo poder aquisitivo, solicitou ao meu pai algumas peças e foi prontamente atendida. Pois não é que a “Dona Piqueri” – esse era seu nome de guerra – utilizou na parte frontal de sua honrosa sede, precisamente aquelas com a inscrição clara e bem posicionada com o nome de Waldemar Diefenbach, meu pai!

Meu velho, era muito conhecido na cidade, (Hoje existe na cidade até um “Largo” – pedacinho de rua - bem arborizado com seu nome). Ele foi três vezes Vereador, uma vez Vice-Prefeito e uma Prefeito. Com aquela exposição, ficou muito vexado! A gozação e divertimento de seus amigos e a Família mesmo, foi demais! Muito engraçado, até o dia de um amigo tomar a iniciativa de ir ao famoso local e dar uma demão de tinta sobre aquela inscrição maldosa! Rimos por muitos anos e me diverte até hoje. “Seu Waldemar” nos deixou há mais de trinta anos rumo a Eternidade!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

 208) Tétrico: - O Caixão de Defuntos.

 

Na minha mais tenra infância, oito anos de idade, década de cinquenta, minha Família Marchiori teve uma perda muito forte pelo óbito, da “tia Lina”! Com apenas trinta e sete anos de idade, ao se queixar de sintomas de uma gripe comum, teve através de injetável de penicilina - época de não se ter cuidados de hoje em evitar antibióticos – o pior, foi aplicada pelo próprio irmão! Choque anafilático, morte súbita!

 A correria, desespero de suas irmãs nem se deram conta da necessidade de proteger as crianças do tétrico evento. Acontecimento ocorreu ao entardecer e foi uma noite inteira de velório na própria residência, comum naqueles tempos. Fiquei indignado de como a Vida é! O cheiro de velas, das flores perfumadas e em especial ao visual do ataúde me impressionaram demais. Se fôssemos “mais modernos” diríamos foi provocado um trauma indelevelmente marcado na criança...

 Foram muitos anos de pesadelos com o visual do Caixão! A memória visual daquele artefato de madeira muito bem trabalhada, permaneceu dando um medo danado, não da morte, pois não tinha maturidade suficiente para tal, mas medo dos mortos ou tudo que me lembrasse “deles”!

 A Vida segue seu rumo e sendo o mais novo dos cinco irmãos, a tarefa de todo entardecer de ir até a padaria, era da minha competência sendo do meu pleno agrado! Claro, vir beliscando o bico daquele pão francês de 500 gramas recém feito, era delícia pura! A caminhada do percurso era de exatamente quatro quarteirões em “L”. Acontece, ao cumprir a ritualística dessa caminhada sempre no mesmo padrão para a ida, no entanto o retorno havia outro itinerário a incluir passagem defronte a uma funerária com seus esquifes à mostra.

 Se ao passar olhasse para aquela assustadora vitrine, na noite o sono era arrastado pelo medo da lembrança do temido Caixão de Defuntos! Então passando pela funerária devia manter olhos para a frente. Entretanto no ponto crítico, paralisava e analisava por longos segundos se olharia “a direita” ou não! Demorava a decidir, mas a idiotice ditava firme, irresoluto: Olhe!

Eu olhava! Pronto. Na noite era aquela bronca para dormir no escuro imaginando aquele mórbido visual. Na cama decidia com a mais absoluta firmeza: “Amanhã não vou olhar!” Pronto. Tudo resolvido.

No dia seguinte, como todo o alemão e sua tradicional teimosia, eu parava naquele ponto estratégico, pensava, analisava os “prós & contras” e decidia: Olhar novamente para afugentar o medo, mas na verdade só o aumentava, pois na hora de dormir, voltava aquela imagem fixa na cabeça! Mas que guri teimoso!