quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 214) E Jerusalém?

 Estar em Jerusalém é mágico! A Cidade e tudo aquilo lá vivenciado, mostra a cada visitante um Mundo envolvente num turbilhão de emoções racionais e espirituais! A Alma parece receber a cada instante uma mensagem nova, indescritível. É sentir a História Viva presente em cada pedra montada nos Templos e na construção do Muro protetor dessa icônica Cidade. Jerusalém foi sonho do Rei Davi. Edificada aos pés da colina, onde ele determinou, cujo topo foi erigido o Primeiro Templo de Salomão, em Honra ao Senhor Deus!

Tristemente numa época de Domínio da Babilônico, 586 a.C., após um longo cerco, a cidade foi arrasada sob o comando de Nabucodonosor II e o Reino de Judá desmantelado com boa parte da sua população junto com a Elite Judaica deportada para a Babilônia e lá escravizada, marcando o exílio do Povo Judeu de sua Pátria.

 A Bíblia (*) registra reconstrução dos Muros por volta de 445 a.C. numa das passagens mais célebres por Neemias, reestabelecendo a vida ativa na Cidade, até então sem nenhuma proteção, portas queimadas, ruinas, vulnerável e desonrada. Caos total!

 Pois Jerusalém ainda está lá e provavelmente estará para sempre. Continua gloriosa e disputadíssima. Tantas vezes destruída e recuperada ao longo de milhares de anos. Impressiona o sentimento provocado ao caminhar em cada uma de suas vielas. Seguir os passos de Jesus rumo à sua Crucificação é doloroso. E é “Dolorosa” o nome dessa via. Visitar, entrar no interior do Santo Sepulcro – mesmo por noventa segundos rigidamente controlados - emociona demais! Paredes escuras, lúgubres, provocam a sensação da morte. Brota o sentimento de uma injustiça brutal e sem nome no coração. A penumbra provoca um “nó na garganta”! É provocado um mergulho profundo na Consciência Cristã!

 Lá fora, longe dessa atormentadora tristeza, brilha a pujança do Muro das Lamentações - Muro Ocidental – onde está sua parte visível na Praça de Oração, com seus dezenove metros de altura acima do solo. Sua estrutura total inclui partes subterrâneas e escavadas, chegando a quarenta metros de altura. Sua extensão visível e de visitação não passa de setenta metros, sendo seu total de quase quinhentos metros. Pois ela se mantém em pé até hoje, mesmo com tantas destruições impostas ao resto de toda sua extensão. Exibe-se monumental. É lá onde peregrinos sentem sua energia afirmando: - Aqui é onde “a morte não chega”!

São centenas, talvez milhares de visitantes todo o dia! Não são turistas na verdade, minoria. Um número imenso é de pessoas de Fé, Crença na Existência e Presença Divina e estão lá a orar, rogar perdão e implorar Bênçãos! Difícil de explicar, lá a gente simplesmente sente!

A Cidade convive – não posso afirmar em plena harmonia – com suas mais importantes crenças. São três religiões distintas com seus suntuosos templos: - Judaísmo, Islamismo e Cristianismo a reverenciar seu Criador. Essas Comunidades partilham a Cidade Velha dividida em bairros judaico, muçulmano e cristão. Ainda há o armênio.

Fora dos Muros, uma cidade nova, moderna e mostra em seu Museu do Holocausto uma fase das mais cruéis da História do Mundo Moderno: - O Massacre Nazista imposto ao Povo Judeu! Suas fotos e algumas reconstruções dos planos de tortura embrulham o estômago do mais insensível de seus visitantes.

Defronte à Cidade está o Monte das Oliveiras, local onde se atribui a Ascenção de Cristo e de suas Últimas Palavras aos seus Apóstolos. A vista de lá é de grande magnitude! Local onde há também o Templo a registrar o local desse Momento Sagrado reservado à Fé Cristã!

 Relatei em minha crônica passada, de como aconteceu essa viagem a Israel. Ao acaso, sem previsão, sem planejamento nem propósito algum. A oportunidade “cruzou” a minha frente, contratei e fui. Na companhia da Elaine, ela, ao se falar em viajar suas malas já estão prontas na porta da garagem! Faço essa referência por já ter me declarado “viajante contumaz”! Estar na estrada, aeroporto ou na estação são coisas do maior prazer dentro das minhas preferências. Israel não foi só turismo, como tantas outras, simplesmente aconteceu, felizmente!

 Toda viagem a passeio – tal como turista – acontece a “curtição” do antes, durante e o depois, com fotos e recordações das mais diversas. Essa não foi assim. Houve o durante e boa parte dele sequer me dei conta de onde estava e de sua magnitude! Setembro de 2022, - precisamente um ano antes do ataque do Hamas pela Faixa de Gaza - com seu pós-viagem mantido em minha mente como uma das mais importantes aventuras já feitas! Daí meu entusiasmo a recomendar: - Conheça Israel!


(*) Segundo Yuval Noah Harari – livro Nexus pg106 – “quando os Cristãos dizem Bíblia, se referem ao Antigo e Novo Testamento em conjunto. Os Judeus não aceitaram o Novo Testamento e sua Bíblia  só se refere ao Antigo Testamento, suplementado pela Mishná e pelo Talmude.”

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 213) Quão belo é o Rio Jordão!

 Será? Vamos interpretar na sequência, de onde tiro algumas conclusões a definir onde está a Real Beleza desse tão famoso Rio. Primeiro devo justificar minhas andanças por Israel. Oriente Médio fica longe de casa uma barbaridade e uma viagem dessas, mesmo sendo amante do turismo de longa distância, sempre nos acompanha uma maquininha de calcular a atualizar o valor do dólar americano do dia e assim por diante. Seguramente ao sonhar com viagem, lá está o câmbio nos maltratando com saltos invariavelmente para cima! Com bom planejamento e pesquisa de preços é possível realizar esse tipo de prazer, sem grandes “choques financeiros”!

 Pois no início do ano de dois mil e vinte dois, muito próximo da meia noite, eu mexia no computador quando surgiu um convite da Hurb Turismo para um voo ida e volta a Tel Aviv, com hospedagem de seis dias em hotel de três estrelas próximo a praia, com um “preço ridículo” para um casal. Classifiquei ridículo porque era pouco mais de mil dólares. Impossível, raciocinei de imediato e maior ainda a desconfiança, quando dava prazo de vinte minutos para decisão de compra, caso contrário, nada feito!

 Pensei algumas vezes, não vou cair nesse golpe. Está muito claro ser trapaça, óbvio! E se não for? Aquilo ficou me incomodando e perdi a concentração das coisas no teclado. Sobreveio uma dúvida cruel! A pressão crescendo e um relógio em contagem regressiva alertando sobre o tempo acabando. É golpe sim, lógico. Mas se trata agora de num jogo. Resolvi arriscar, afinal de contas o valor não assustava para se perder, por outro lado se for real, minha vantagem será gigantesca, pois os valores eram inferiores a uma viagem de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Comprei! Todos sabem, ninguém gosta de perder e a derrota fica pior quando pessoas assistem nossa ingênua derrocada. Otário!

 Nesse caso, não contarei a ninguém da minha “esperta” compra. Não contei nem para a Elaine, minha esposa, companhia para a viagem recém comprada! Passou quase um ano, ansioso enviei questionamento do número do meu voo, simulando ter caído no golpe sem percebê-lo, a não provocar a ira do provável vigarista. Nenhuma resposta. Então o melhor é esquecer e ir sondando aquelas milhas acumuladas para outra viagem qualquer.

De volta a tranquilidade de quem perdeu pouco, recebo e-mail solicitando minha confirmação das datas reservadas a Israel! Só acreditei concretamente quando ao confirmar, recebi na sequência os bilhetes confirmando SP/Tel Aviv/SP. Nesse dia finalmente comuniquei a mulher que viajaríamos em uns noventa dias a uma das mais interessantes viagens já feitas!

Começamos por Tel Aviv (Literalmente, “Colina da Primavera”), principal centro econômico, tecnológico e cultural do país. Metrópole moderna, vibrante e liberal, contrastando com o caráter mais tradicional de outras Regiões Israelenses. Lá, visita tradicional ao Carmel Market, de um sortimento encantador de produtos regionais, com frutas diversas onde sequer sabia de suas existências! Praia maravilhosa de areia limpa, muito bem frequentada e de excelente temperatura das calmas ondas do Mediterrâneo.

Na sequência um tour religioso com visita obrigatória a Belém, reverenciando o local da Natividade. Onde ocorreu o Nascimento de Jesus! Isso emociona profundamente! Na sequência, finalmente a se molhar – discretamente - no Rio Jordão! Esse, um ponto onde carregava imensa expectativa a considerar toda Sabedoria Lavrada nas Sagradas Escrituras: - O Encontro de João Batista e Jesus! O Rio está lá, seu significado Sagrado é profundamente respeitado e são dezenas de Crentes a visita-lo diariamente a tomar seu Batismo!

O Rio, no ponto onde se faz a visita formal, é estreito – não mais de seus vinte metros – com água de cor marrom claro, relativamente parada e coberta de vegetação verde escura a cobrir significativamente sua superfície. Dá-se uma impressão – pode ser falsa – de forte poluição e descarte de lixo. São peças de plástico boiando. Sinceramente esperava pelo menos uma manutenção de higiene mais rigorosa. Então o “Belo” desse Rio, fica restrito e por conta de sua Importância Histórica no reforço da Fé Cristã! Forte decepção!

 Jerusalém, representa a Vida de uma Nação, base da Fé Judaico Cristã, ficará para a próxima semana!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 212) Firenze, parada de luxo para fazer xixi!

 Em Lua-de-mel, viajamos para o Norte da Itália a viver um pouco o clima das minhas origens italianas. Na chegada em Milão aluguei um carro japonês para fazer o primeiro passeio ao Lago Como, de beleza deslumbrante! Próximo à fronteira com Áustria e Suíça, é de um visual Alpino espetacular e mesmo em dia de chuva – foi o caso - é glorioso! Melhor ainda sendo coroado com uma parada em restaurante de beira de estrada, com um serviço de comida típica caseira da Região! Maravilhosa! Por estar dirigindo, tomei apenas um “bicchiere di vino”!

 A beira do Lago, vale declamar: - “Anni, amori e bicchieri di vino non si cotano mai!” Traduzindo: - Anos, amores e taças de vinho nunca devem ser contados! Contexto Cultural: Segredo para a felicidade sugerindo se aproveitar a vida sem se preocupar com idade, relações ou a quantidade de vinho apreciado!

 A noite encerramos em Milão com a mundialmente apreciada pizza! Aí sim, com o direito a mais vinho, se comparado ao almoço! São duas de três das coisas a considerar obrigação na Itália: O vinho e pizza. A outra, totalmente por minha conta é o tomate! Não saia da Itália sem comer tomates vermelhos, maduros. (Recomendei a cor, por mais idiota que pareça, porque lá encontrei um tomate preto! Casca, mesmo macia, num tom bem escuro de um “quase” preto...) - Compre na feira, supermercado, sei lá e leve para o quarto - dá um jeito de ter um saleiro disponível - se não tiver tomate no cardápio do restaurante de sua escolha, reclame! Apenas um pouco de sal e se delicie da melhor fruta existente no Planeta! Exagerei? Absolutamente! Vai lá e experimente!

 Na sequência, em direção a Florença tem uma boa estrada cruzando por Placência, Parma, Módena chegamos a entrada da cidade destino. Auto estrada onde a velocidade me pareceu livre! Abusei do acelerador? Sim. Se o trem faz em menos de duas horas, me achei no direito de fazer parecido... A parte crítica dessa viagem, aconteceu exclusivamente comigo, por não haver nenhum posto de gasolina ou algo semelhante para uma paradinha estratégica para ir ao banheiro. Lamentável. O desjejum havia sido com frutas e suco. (Claro, com tomates!) Antes da metade da viagem, forte necessidade de ir a um banheiro. E lá não existe! E agora? No hotel no final da viagem? Não vou aguentar. Terei uma “explosão bexigana”!

Ao entrar na cidade, eu estava roxo, lagrimando. Lágrimas eram de urina – eu acho – e o desespero tomou conta de todos possíveis pensamentos. Minha mente produzia delírios com mictório, vaso sanitário, penico, campo aberto e assemelhados! O sofrimento me fez criativo. Ou nem tanto... Rodando nas avenidas da cidade, em uma das avenidas bem movimentadas, estacionado em oblíquo com meu pequeno March da Nissan, porta aberta a improvisar uma cortina, sentei no meio fio da calçada, mãos trêmulas, preparei o dispositivo à finalidade proposta e me “esvaí” em urina!

 Sei, parece exagero escrever sobre uma necessidade fisiológica básica, algo tão simples e corriqueiro transformado em um evento inesquecível! Levem em consideração a me desculpar, pois lá se vão quinze anos desse fato e tenho ele nítido na memória, e não é memória afetiva, apesar de ocorrer durante uma lua-de-mel! Todo o acontecimento e situação vivenciada durante o percurso e a expectativa de encontrar um banheiro público, tornou-se assim tão especial. Uma Memorável Mijada! 

 Espero não ser excluído do sistema, penalizado pela censura na divulgação da minha Crônica nesse blog. Seria lamentável retirar da história um momento tão marcante desse humilde escritor!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 211) É desconcertante o olhar dado a um cadeirante!

Sim. Fui cadeirante por algum tempo! Foi um período de meses enquanto convalescente por múltiplas fraturas em dois fêmures mais o calcanhar direito. Resultado de um acidente já tratado em crônicas aqui publicadas, historiando mais de trezentos saltos de para-quedas. Apesar do acidente tão importante, não foi ele a decretar o fim da atividade. Teimosamente após a recuperação física, voltei a saltar por mais uns trinta e poucos saltos!

Evidente é ser a hospitalização – por três semanas - um período de séria ameaça às crises de depressão. O velho e conhecido Prozac (nome comercial da fluoxetina) resolveu esse período de forma muito eficiente somado a um incrível apoio da Família e Amigos. Eles não me deixaram um dia sequer solitário a mergulhar na tristeza! Quarto do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre esteve sempre cheio de visitas a me alegrar o tempo todo! Parece ironia. Não é. Eu vivia momentos de grande alegria, tamanho o carinho sentido por tantos queridos visitantes!                                                                   

Depois da alta um período longo de recuperação em casa e mais adiante as primeiras movimentações fora da cama. Depois da cadeira-de-rodas o andar com as muletas, bengalas etc. Obviamente fisioterapia por mais de ano com “dedicação furiosa” de minha parte. Acreditava – e merecia o crédito – na recuperação e o voltar a caminhar normalmente como nós merecemos, sem dores e desequilíbrios!

Um dia, ainda em cadeira-de-rodas, pálido, magérrimo tomava um pouco de sol no pátio de casa, quando ao passar pelo bairro meu amigo Jorge, resolveu me visitar, entretanto, não sabia do acidente. Adentrou, acompanhado da minha cuidadora exclamando:

 - Olha Fausto: - O Jorge! Lembra dele?

Por uns vinte metros Jorge caminhou em minha direção sorrindo com um “olhar exclamando” pena, dúvidas e um indescritível sentimento de dó! Mistura e confusão mental a imaginar um provável derrame cerebral e muitos outros fatos e coisas ruins! Quando respondi com voz vigorosa – pelo menos isso eu tinha – e depois ele confessou do “alívio” ao perceber, tudo não passava de danos físicos no meu corpo, nada no cérebro ou cabeça, como se diz popularmente! Afinal de contas, concertar ossos quebrados é só uma questão de boa reposição em seus lugares certos, fazer emendas e aguardar o tempo passar. “Só” isso!

Mais adiante, ainda em cadeira-de-rodas, sai a passear. Fui ao cinema, no Dado Bier comer um sushi e muitas vezes ao supermercado, sempre acompanhado. O doloroso, era ser alvo de olhares de desconhecidos inclusive, com dó, piedade. De fato, só vivenciando essa experiência se pode conhecer o que é isso... O olhar com pena de estranhos é tão doloroso a se tornar inesquecível! Sente-se uma vontade imensa de chamar a pessoa e explicar o acontecido: “Não se preocupe, eu vou ficar bem logo, acreditem! Mas não dá! Fica a marca da piedade no coração e não tem como se livrar disso, por anos!

O resumo da ópera, fica em ter certeza de tudo ser um aprendizado embora especialmente doloroso. É exatamente isso, a dor a construir uma aula de Vida. Certamente me tornei melhor, conheci a profundidade do ferimento ao ser atingidos pela humildade enquanto deficiente. Carrega-se no coração a convicção de quão fraco e vulnerável somos. A Existência é presa apenas por um fio tênue, frágil e tudo pode acontecer.

Então, “Carpen Diem”! Expressão em Latim dizendo colha o dia, mais comumente, aproveite o dia! Convite a manter ativo em nossa mente o viver com intensidade o presente e suas oportunidades. Temos um futuro incerto e uma Vida muito curta! Essa alerta do Carpen Diem, foi cunhada pelo poeta romano Horácio (século I a.C.) e é um chamado a desfrutar o agora sem adiar a felicidade e nem confiar cegamente no amanhã! Lembrete para não se preocupar demais com o futuro e focar no feito e desfrutado de hoje!

Quem tiver fé na existência do Criador, seguramente viverá melhor mergulhando seus dias na esperança de Salvação e Vida junto ao Eterno!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 210) E o Tshuntshu Fugiu. Sabiá esperto!

 “Meu Velho”, já referido na Crônica 207, dentre tantos hábitos de seu dia-a-dia, um deles era o de criar em cativeiro faisões, perdizes e teve até um sabiá. Era comum na cidade pessoas levarem a ele alguma ave ou pássaro ferido para ele cuidar e adotá-lo. Um deles foi o tal sabiá de nome Tshuntshu – não faço a menor ideia de onde veio esse nome -  fácil ao pronunciar, mas difícil convertê-lo em letras do nosso alfabeto.

 Mantido em uma gaiola tradicional, era alimentado com alguma ração qualquer, mas meu Pai fazia questão de todo dia levar uma “proteína” ao empenado pássaro. Descobrimos mais tarde ser “um sabiá fake”. Era UMA sabiá, pois não cantava, recurso exclusivo ao pássaro macho. Pequenas lascas de carne e até mesmo algumas minhocas lhes eram oferecidas diretamente no bico. Até algum momento, encorajado comia na palma da mão...

 A Eni, nossa secretária, se encarregava da limpeza diária de seus aposentos até o dia de ouvirmos sua gritaria histérica: “O Tshuntshu fugiu!” O lamento foi geral e as acusações de descuido engrossaram o dia! Houve “suspeita de facilitação de fuga” – tão normal no noticiário das nossas penitenciárias de hoje em dia – mas negado peremptoriamente pela acusada. A Família ficou triste, pois havia muito afeto envolvido nessa relação ornitológica tão profunda!

 Não teve sequer dois dias de tristeza! Tshuntshu retorna voluntariamente ao seu cativeiro, aguardando sua alimentação! Eni correu e fechou a gaiola para se apresentar como heroína da captura do estimado sabiá! Nessas alturas dos acontecimentos, ela já perdoada, mas como em todas histórias do crime, reincidiu e lá se foi em fuga novamente, o tão estimado sabiá!

 Num período ainda menor do anterior, Tshuntshu volta à sua casa e vejam, nem chamo mais de cativeiro, pois desse momento em diante, não se trancou mais a gaiola e a liberdade do ir e vir SEM tornozeleira foi decretado. Livre, leve e solto ficou atrevido e passou a circular o interior da casa, sem o menor constrangimento, certamente se considerando da Família! Sua primeira incursão do dia era no ombro do meu pai enquanto se barbeava e ficava brabo se o seu apoio – o ombro – se mexesse demais. Gritava histericamente!

 Não sei avaliar quanto tempo houve esse belo e harmonioso convívio “entre nós”. Entretanto aconteceu um novo período de desaparecimento, abandonou novamente a gaiola, ou melhor, sua casinha gradeada e depois descobrimos sua transferência a um pé de Camélias e ali construiu seu ninho. Foi quando descobrimos seu verdadeiro sexo: Feminino! Eu já suspeitava ser fêmea, pois enquanto foi livre revoando no interior da casa, pousava sempre defronte a algum espelho...

 Na sequência colocou ovos, chocou e deu a luz a um lindo menino, ou melhor, um lindo sabiazinho! Um lindo, na verdade bem feinho, sem penas e com aquele bico amarelo a pedir comida insaciavelmente! E fomos felizes para sempre!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 209) Intuição ou Premunição?

 

A principal diferença entre uma e outra, diz ser a Intuição o conhecimento instintivo vindo do raciocínio na absorção de padrões. Premonição, aviso antecipado: - “Vai acontecer algo!” É como uma visão futura ou presságio.

Essa descrição encontrada facilmente no Google, pouco ajuda se dependermos dela para tomada de decisão. Realmente importa é sabermos interpretá-la, acreditar e principalmente obedecê-la sem, contudo, se converter num “medroso de carteirinha”, temendo a tudo e acaba evitando riscos sim, mas neuroticamente. Fica doloroso. Todos nós sabemos, o risco faz parte da Vida e a torna muitas vezes, mais atraente a nos permitir um melhor saborear das boas vitórias do nosso dia-a-dia!

Já contei aqui, sobre um acidente de para-quedismo onde fui envolvido gravemente, em setembro de 1999. Éramos um grupo de amigos a celebrar a alegria de um salto festivo programado a fazê-lo no Estádio Olímpico do Grêmio Futebol Porto Alegrense, quinze minutos antes de um Gre-nal pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, o “Brasileirão”! Erros de percurso cometidos, resultaram num grave acidente próximo ao momento do pouso, que por detalhe não me custou a vida.

Me deu muito trabalho: - Alocação de aeronave, licença junto a Aeronáutica com o NOTAN (Notificação de Tráfego Aéreo Nacional) aprovado, licença da CBF para estar dentro do campo de jogo minutos antes da partida e permissão do Clube. Eu era Diretor de Marketing o que facilitou essa última e decisiva etapa. Como diz na gíria, “tudo nos conformes” e era só aguardar nervosamente o dia e hora desse voo fantástico! Isso veio a acontecer num belo e ensolarado domingo de Primavera!

Ás vésperas, dois dos atletas, meus amigos mais próximos e por afeição nos reunimos na minha casa para um jantar e conversar sobre a alegre aventura em andamento. Padado e Vídeo – seus apelidos na Área de salto - mais nossas namoradas e esposa, estivemos ao redor da churrasqueira assando uma carne a conversar entusiasmadamente em plena euforia, própria ao que faríamos dali dois dias...

Curiosamente essa alegria não foi duradoura. Em mum dado momento, Padado suspirou e saio para a toalete e a partir daquele momento a alegria murchou em nossos corações. A tristeza inexplicavelmente entrou pela noite adentro. Tudo foi ficou sombrio, rostos se fecharam e caímos num silêncio melancólico. Encerramos o jantar nesse decadente estado de espírito!

Tudo “aquilo” depois bem interpretado, era intuição nos chamando atenção dos riscos acima do aceitável, merecendo uma concentração quase profissional daquele ato, longe de um simples movimento de laser, exigia uma postura especialmente por mim, bem mais séria. Eu detinha o menor número de saltos, menor experiência, portanto. Atitude séria e isenta de distrações infantis seriamente cometidas, pelo encantamento – natural as navegações aéreas – merecia atenção muito mais acurada!

Tempos depois, todas as feridas curadas, ossos calcificados proporcionados pelo malfadado salto, com aquele acidente grave no meu pouso crivado de pequenos erros de navegação e pouso quando por detalhe não me levou a morte, me veio a memória aqueles momentos de súbita tristeza invadida nos nossos corações de forma estranha, mas inapelável!

Era o aviso: “Não vai Fausto”! Não quis escutar. Teimoso num misto de orgulho com soberba, paguei o preço bem caro em pesadas prestações de vinte e dois dias de hospitalização e cinco cirurgias bem significativas! Aprendemos muito até os cinquenta anos e depois devemos passar a obedecer aos alertas finalmente visíveis a nossa frente!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 208) Pedido do Gordo: O Destino de Suas Cinzas!


O Gordo, Luis Emílio Sesti Motta, foi o amigo mais antigo, de maior longevidade. Neto de fazendeiro em Jaguari, menino voluntarioso me ajudou quando nos conhecemos no encerramento do velório da tia Lina, quando fui encarregado a devolver à funerária os pertences com castiçais etc. época dos velórios serem feitos na residência do falecido.

Eu tinha oito anos e ele cinco e a amizade só acabou, há sete anos com seu óbito! Foram sessenta anos de uma amizade onde nos separamos raramente e só no plano geográfico, por necessidades profissionais ao trocar de cidade. Ele, como eu, tivemos dois casamentos e em ambos fui seu Padrinho, bem como ele foi meu Padrinho nos dois. Foi também o amigo a me apresentar a “atual” esposa, a Elaine!

Pois o Gordo era um dos componentes do “The Crasies Club”, fundado há sessenta anos que nunca admitiu novos sócios. Nunca teve interessado a se candidatar..! Permaneceram os seis guris, da nossa Terra Natal, da adolescência até ter nele o segundo óbito, em seis de seus sócios. A tristeza encerrou nossos três encontros anuais com até então, com absoluta regularidade.

Ele era um “Colorado Fanático” e eu da oposição Tricolor. Tínhamos um pacto de sangue de jamais discutir futebol. Esse respeito mútuo e inarredável reforçava os laços entre nós! Um respeito imposto naturalmente, saudável a preservar amizade  sempre recomendável, especialmente no Rio Grande do Sul onde a “rixa” entre esses dois clubes é imensa! Todos sabemos, discutir esporte, política e religião, é uma bobagem infantil, jamais fortalece relações...

Ele um constante gozador debochado, me pregou a peça derradeira nessa rivalidade Grenalizada. Sem chance de eu me vingar no futuro. Quando ele soube de sua enfermidade letal, decidiu sua cremação e distribuição das cinzas em diversos lugares. Curtia estar em muitos lugares ao mesmo tempo a “pegar no pé” de um ou de outro. Pois me designou a levar uma parte de suas cinzas precisamente ao Estádio Beira Rio, estádio do meu maior rival!  Tínhamos nossas convicções de jamais visitar o estádio de futebol do nosso arquirrival... Ele por safadeza me deixou essa incumbência. Obrigatoriamente cumprida por mim! Não sei se do Eterno, as Almas nos veem aqui nesse Plano. Caso afirmativo, imagino ele rindo de mim as gargalhadas, enquanto eu, em pleno estádio do meu adversário, distribuindo suas derradeiras cinzas! Brincalhão safado, mesmo depois de morto!

Amigos! Ah os Amigos! Valem ouro e deixam uma saudade imensa quando se vão! Se eu tivesse autoridade para dar conselho, esse seria um dos primeiros: - "Tenha e mantenha muitos amigos. Amizade, eu reforço, com contato, presença física com direito ao abraço. É muito fria a amizade moderna restrita a um contato eletrônico sem o aperto entre corpos. Nada substitui o aperto de mão, o abraço e até um beijo!

Um telefonema, um whats é bom, mas dado a celeridade das nossas vidas, se torna muito pouco! Ouvi de um amigo, conterrâneo, R. Bernardi: “Tens visitado teus velhos?” Sim! A cada sessenta dias! “É pouco!” Respondeu convicto! Depois de perder meus pais, lhe dei plena razão, mas já era tarde!