233) Quantos Dentes eu Extrai Durante o Serviço Militar?
Prestei o Serviço Militar obrigatório em 1967, isso já escrevi algumas vezes nesse canal. Servi no Quarto Regimento de Cavalaria do Exército, cidade de Santiago do Boqueirão, distante quarenta e seis quilômetros da minha Terra Natal Jaguari, onde vivia até então.
Adorei, apesar de ter sido o ano com mais “trabalhos pesados” de toda minha vida, principalmente no período de Soldado. Promovido Cabo, tudo mudou e passei a curtir cada minuto da Caserna. Da solidariedade entre Soldados, da amizade comprometida e das saudáveis – nem sempre tão saudáveis – brincadeiras entre os menos espertos...
Ruim era o dia de domingo na ausência de atividade – mas pior quando de Serviço, com atividade – o dia se arrastava chato e muito longo. Não me queixo chorosamente, pois foram poucos naquele ano de não ir para casa. De Jaguari, retornava "muito bem alimentado" e com um saco de algodão branco enorme cheio de perfumadas bolachas caseiras feitas pela Eni, a querida Assistente Doméstica do meu Lar Materno!
O complicado do final de semana, foi ter nos primeiros meses expediente aos sábado pela manhã. Isso atrapalhava a fuga para casa, pois ônibus só à noite para voltar no domingo à tarde. Com a pressão na contenção de gastos, uma passagem de ônibus para um período tão curto, tornava o final de semana caro, fora dos “padrões” de um Soldado.
Era no sábado à noite a grande curtição com meus amigos a validar a pequena viagem. Junto deles e com a Família, era onde tinha reconhecimento social e local para as festas tradicionais de um recém saído da puberdade. Na cidade do Quartel eu era apenas um “milico” pobre e com rasa expressão, isto é, entre as garotas não conseguia sequer “um olhar de piedade”. Lá, eu era ninguém! Então durante o final de semana em Santiago, não punha o nariz para fora dos muros do Quartel. A alternativa era depressão (nessa época nem se conhecia esse termo...) ou uns bons goles de cachaça com butiá e outras frutas coloridas, sempre disponível nos armários dos colegas! Às vezes tínhamos companhia de um colega “rico” com a preciosa propriedade de um rádio portátil! Alegria! Tínhamos música no alojamento!
Minha salvação para os finais de semanas com liberdade a viajar, se estabeleceu através do bom relacionamento com o Cabo assistente do Dentista do Quartel: Garantiu-me para plena alegria: - “Arranca um dente na quinta-feira, daí tu tens dois dias de dispensa!”
Acreditando na prescrição de crime, envergonhado confesso: - O tal Cabo me “arrumou” por pelo menos uns cinco finais de semana estratégicos com atestados de extração de dentes! Sem medo de ser feliz, lá estava eu em plena quinta-feira indo para casa! Melhor nem contar para ninguém. Na doce ingenuidade de um menino de dezoito anos, não me dava cona do risco de tal atitude... Meu custo adicional era voltar com um garrafão de Vinho Jaguari a presentear ao querido Cabo de tão conveniente amizade!
Minha vontade ao aceitar essa estratégia, ficava por conta de estar deprimido em uma cidade – de vida social rica – e a obrigatoriedade de uso permanente da Farda de Passeio quando fora do Quartel. Sinceramente, era feia uma barbaridade e andar pela cidade “à Paisana", absurdamente arriscado, pois havia no Quartel General um Primeiro Tenente a comandar a PE (Polícia do Exército) absurdamente rigoroso. Caçava e prendia a quem ousasse não cumprir essa Regra. Época difícil, pois os outros jovens civis a competir na “paquera”, andavam até com botinhas à moda Roberto Carlos! Então raríssimas vezes arrisquei. Quando o fiz, avistando aqueles capacetes verdes de borda branca, pânico letal!
Em oito de dezembro daquele ano, dei “Baixa” e voltei à vida civil e pasmem, com frequentes sonhos de ainda estar no Exército e confesso, com uma saudade imensa. Saudades da fraternidade, do companheirismo, da disciplina militar, onde o respeito mútuo sempre manteve sua hierarquia sólida e muito bem estruturada.
Muita coisa acontece na vida de todos nós, com alguns fatos ocasionando giros fortes nos rumos da nossa Caminhada Terrena. Hoje afirmo convicto, aconteceu de janeiro a dezembro daquele saudoso 1967 o período da mais expressiva e rica Escola de Vida da minha Existência! Repetiria feliz todos os dias, todos os passos naquela maravilhosa oportunidade de verdadeiro crescimento e maturação. Mesmo com suor e lágrimas, sofrendo aquela série de “extrações de dentes fake", eu era muito feliz!
Porto Alegre, 13/ago/2026.