quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 211) É desconcertante o olhar dado a um cadeirante!

Sim. Fui cadeirante por algum tempo! Foi um período de meses enquanto convalescente por múltiplas fraturas em dois fêmures mais o calcanhar direito. Resultado de um acidente já tratado em crônicas aqui publicadas, historiando mais de trezentos saltos de para-quedas. Apesar do acidente tão importante, não foi ele a decretar o fim da atividade. Teimosamente após a recuperação física, voltei a saltar por mais uns trinta e poucos saltos!

Evidente é ser a hospitalização – por três semanas - um período de séria ameaça às crises de depressão. O velho e conhecido Prozac (nome comercial da fluoxetina) resolveu esse período de forma muito eficiente somado a um incrível apoio da Família e Amigos. Eles não me deixaram um dia sequer solitário a mergulhar na tristeza! Quarto do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre esteve sempre cheio de visitas a me alegrar o tempo todo! Parece ironia. Não é. Eu vivia momentos de grande alegria, tamanho o carinho sentido por tantos queridos visitantes!                                                                   

Depois da alta um período longo de recuperação em casa e mais adiante as primeiras movimentações fora da cama. Depois da cadeira-de-rodas o andar com as muletas, bengalas etc. Obviamente fisioterapia por mais de ano com “dedicação furiosa” de minha parte. Acreditava – e merecia o crédito – na recuperação e o voltar a caminhar normalmente como nós merecemos, sem dores e desequilíbrios!

Um dia, ainda em cadeira-de-rodas, pálido, magérrimo tomava um pouco de sol no pátio de casa, quando ao passar pelo bairro meu amigo Jorge, resolveu me visitar, entretanto, não sabia do acidente. Adentrou, acompanhado da minha cuidadora exclamando:

 - Olha Fausto: - O Jorge! Lembra dele?

Por uns vinte metros Jorge caminhou em minha direção sorrindo com um “olhar exclamando” pena, dúvidas e um indescritível sentimento de dó! Mistura e confusão mental a imaginar um provável derrame cerebral e muitos outros fatos e coisas ruins! Quando respondi com voz vigorosa – pelo menos isso eu tinha – e depois ele confessou do “alívio” ao perceber, tudo não passava de danos físicos no meu corpo, nada no cérebro ou cabeça, como se diz popularmente! Afinal de contas, concertar ossos quebrados é só uma questão de boa reposição em seus lugares certos, fazer emendas e aguardar o tempo passar. “Só” isso!

Mais adiante, ainda em cadeira-de-rodas, sai a passear. Fui ao cinema, no Dado Bier comer um sushi e muitas vezes ao supermercado, sempre acompanhado. O doloroso, era ser alvo de olhares de desconhecidos inclusive, com dó, piedade. De fato, só vivenciando essa experiência se pode conhecer o que é isso... O olhar com pena de estranhos é tão doloroso a se tornar inesquecível! Sente-se uma vontade imensa de chamar a pessoa e explicar o acontecido: “Não se preocupe, eu vou ficar bem logo, acreditem! Mas não dá! Fica a marca da piedade no coração e não tem como se livrar disso, por anos!

O resumo da ópera, fica em ter certeza de tudo ser um aprendizado embora especialmente doloroso. É exatamente isso, a dor a construir uma aula de Vida. Certamente me tornei melhor, conheci a profundidade do ferimento ao ser atingidos pela humildade enquanto deficiente. Carrega-se no coração a convicção de quão fraco e vulnerável somos. A Existência é presa apenas por um fio tênue, frágil e tudo pode acontecer.

Então, “Carpen Diem”! Expressão em Latim dizendo colha o dia, mais comumente, aproveite o dia! Convite a manter ativo em nossa mente o viver com intensidade o presente e suas oportunidades. Temos um futuro incerto e uma Vida muito curta! Essa alerta do Carpen Diem, foi cunhada pelo poeta romano Horácio (século I a.C.) e é um chamado a desfrutar o agora sem adiar a felicidade e nem confiar cegamente no amanhã! Lembrete para não se preocupar demais com o futuro e focar no feito e desfrutado de hoje!

Quem tiver fé na existência do Criador, seguramente viverá melhor mergulhando seus dias na esperança de Salvação e Vida junto ao Eterno!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 210) E o Tshuntshu Fugiu. Sabiá esperto!

 “Meu Velho”, já referido na Crônica 207, dentre tantos hábitos de seu dia-a-dia, um deles era o de criar em cativeiro faisões, perdizes e teve até um sabiá. Era comum na cidade pessoas levarem a ele alguma ave ou pássaro ferido para ele cuidar e adotá-lo. Um deles foi o tal sabiá de nome Tshuntshu – não faço a menor ideia de onde veio esse nome -  fácil ao pronunciar, mas difícil convertê-lo em letras do nosso alfabeto.

 Mantido em uma gaiola tradicional, era alimentado com alguma ração qualquer, mas meu Pai fazia questão de todo dia levar uma “proteína” ao empenado pássaro. Descobrimos mais tarde ser “um sabiá fake”. Era UMA sabiá, pois não cantava, recurso exclusivo ao pássaro macho. Pequenas lascas de carne e até mesmo algumas minhocas lhes eram oferecidas diretamente no bico. Até algum momento, encorajado comia na palma da mão...

 A Eni, nossa secretária, se encarregava da limpeza diária de seus aposentos até o dia de ouvirmos sua gritaria histérica: “O Tshuntshu fugiu!” O lamento foi geral e as acusações de descuido engrossaram o dia! Houve “suspeita de facilitação de fuga” – tão normal no noticiário das nossas penitenciárias de hoje em dia – mas negado peremptoriamente pela acusada. A Família ficou triste, pois havia muito afeto envolvido nessa relação ornitológica tão profunda!

 Não teve sequer dois dias de tristeza! Tshuntshu retorna voluntariamente ao seu cativeiro, aguardando sua alimentação! Eni correu e fechou a gaiola para se apresentar como heroína da captura do estimado sabiá! Nessas alturas dos acontecimentos, ela já perdoada, mas como em todas histórias do crime, reincidiu e lá se foi em fuga novamente, o tão estimado sabiá!

 Num período ainda menor do anterior, Tshuntshu volta à sua casa e vejam, nem chamo mais de cativeiro, pois desse momento em diante, não se trancou mais a gaiola e a liberdade do ir e vir SEM tornozeleira foi decretado. Livre, leve e solto ficou atrevido e passou a circular o interior da casa, sem o menor constrangimento, certamente se considerando da Família! Sua primeira incursão do dia era no ombro do meu pai enquanto se barbeava e ficava brabo se o seu apoio – o ombro – se mexesse demais. Gritava histericamente!

 Não sei avaliar quanto tempo houve esse belo e harmonioso convívio “entre nós”. Entretanto aconteceu um novo período de desaparecimento, abandonou novamente a gaiola, ou melhor, sua casinha gradeada e depois descobrimos sua transferência a um pé de Camélias e ali construiu seu ninho. Foi quando descobrimos seu verdadeiro sexo: Feminino! Eu já suspeitava ser fêmea, pois enquanto foi livre revoando no interior da casa, pousava sempre defronte a algum espelho...

 Na sequência colocou ovos, chocou e deu a luz a um lindo menino, ou melhor, um lindo sabiazinho! Um lindo, na verdade bem feinho, sem penas e com aquele bico amarelo a pedir comida insaciavelmente! E fomos felizes para sempre!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

 209) Intuição ou Premunição?

 

A principal diferença entre uma e outra, diz ser a Intuição o conhecimento instintivo vindo do raciocínio na absorção de padrões. Premonição, aviso antecipado: - “Vai acontecer algo!” É como uma visão futura ou presságio.

Essa descrição encontrada facilmente no Google, pouco ajuda se dependermos dela para tomada de decisão. Realmente importa é sabermos interpretá-la, acreditar e principalmente obedecê-la sem, contudo, se converter num “medroso de carteirinha”, temendo a tudo e acaba evitando riscos sim, mas neuroticamente. Fica doloroso. Todos nós sabemos, o risco faz parte da Vida e a torna muitas vezes, mais atraente a nos permitir um melhor saborear das boas vitórias do nosso dia-a-dia!

Já contei aqui, sobre um acidente de para-quedismo onde fui envolvido gravemente, em setembro de 1999. Éramos um grupo de amigos a celebrar a alegria de um salto festivo programado a fazê-lo no Estádio Olímpico do Grêmio Futebol Porto Alegrense, quinze minutos antes de um Gre-nal pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, o “Brasileirão”! Erros de percurso cometidos, resultaram num grave acidente próximo ao momento do pouso, que por detalhe não me custou a vida.

Me deu muito trabalho: - Alocação de aeronave, licença junto a Aeronáutica com o NOTAN (Notificação de Tráfego Aéreo Nacional) aprovado, licença da CBF para estar dentro do campo de jogo minutos antes da partida e permissão do Clube. Eu era Diretor de Marketing o que facilitou essa última e decisiva etapa. Como diz na gíria, “tudo nos conformes” e era só aguardar nervosamente o dia e hora desse voo fantástico! Isso veio a acontecer num belo e ensolarado domingo de Primavera!

Ás vésperas, dois dos atletas, meus amigos mais próximos e por afeição nos reunimos na minha casa para um jantar e conversar sobre a alegre aventura em andamento. Padado e Vídeo – seus apelidos na Área de salto - mais nossas namoradas e esposa, estivemos ao redor da churrasqueira assando uma carne a conversar entusiasmadamente em plena euforia, própria ao que faríamos dali dois dias...

Curiosamente essa alegria não foi duradoura. Em mum dado momento, Padado suspirou e saio para a toalete e a partir daquele momento a alegria murchou em nossos corações. A tristeza inexplicavelmente entrou pela noite adentro. Tudo foi ficou sombrio, rostos se fecharam e caímos num silêncio melancólico. Encerramos o jantar nesse decadente estado de espírito!

Tudo “aquilo” depois bem interpretado, era intuição nos chamando atenção dos riscos acima do aceitável, merecendo uma concentração quase profissional daquele ato, longe de um simples movimento de laser, exigia uma postura especialmente por mim, bem mais séria. Eu detinha o menor número de saltos, menor experiência, portanto. Atitude séria e isenta de distrações infantis seriamente cometidas, pelo encantamento – natural as navegações aéreas – merecia atenção muito mais acurada!

Tempos depois, todas as feridas curadas, ossos calcificados proporcionados pelo malfadado salto, com aquele acidente grave no meu pouso crivado de pequenos erros de navegação e pouso quando por detalhe não me levou a morte, me veio a memória aqueles momentos de súbita tristeza invadida nos nossos corações de forma estranha, mas inapelável!

Era o aviso: “Não vai Fausto”! Não quis escutar. Teimoso num misto de orgulho com soberba, paguei o preço bem caro em pesadas prestações de vinte e dois dias de hospitalização e cinco cirurgias bem significativas! Aprendemos muito até os cinquenta anos e depois devemos passar a obedecer aos alertas finalmente visíveis a nossa frente!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 208) Pedido do Gordo: O Destino de Suas Cinzas!


O Gordo, Luis Emílio Sesti Motta, foi o amigo mais antigo, de maior longevidade. Neto de fazendeiro em Jaguari, menino voluntarioso me ajudou quando nos conhecemos no encerramento do velório da tia Lina, quando fui encarregado a devolver à funerária os pertences com castiçais etc. época dos velórios serem feitos na residência do falecido.

Eu tinha oito anos e ele cinco e a amizade só acabou, há sete anos com seu óbito! Foram sessenta anos de uma amizade onde nos separamos raramente e só no plano geográfico, por necessidades profissionais ao trocar de cidade. Ele, como eu, tivemos dois casamentos e em ambos fui seu Padrinho, bem como ele foi meu Padrinho nos dois. Foi também o amigo a me apresentar a “atual” esposa, a Elaine!

Pois o Gordo era um dos componentes do “The Crasies Club”, fundado há sessenta anos que nunca admitiu novos sócios. Nunca teve interessado a se candidatar..! Permaneceram os seis guris, da nossa Terra Natal, da adolescência até ter nele o segundo óbito, em seis de seus sócios. A tristeza encerrou nossos três encontros anuais com até então, com absoluta regularidade.

Ele era um “Colorado Fanático” e eu da oposição Tricolor. Tínhamos um pacto de sangue de jamais discutir futebol. Esse respeito mútuo e inarredável reforçava os laços entre nós! Um respeito imposto naturalmente, saudável a preservar amizade  sempre recomendável, especialmente no Rio Grande do Sul onde a “rixa” entre esses dois clubes é imensa! Todos sabemos, discutir esporte, política e religião, é uma bobagem infantil, jamais fortalece relações...

Ele um constante gozador debochado, me pregou a peça derradeira nessa rivalidade Grenalizada. Sem chance de eu me vingar no futuro. Quando ele soube de sua enfermidade letal, decidiu sua cremação e distribuição das cinzas em diversos lugares. Curtia estar em muitos lugares ao mesmo tempo a “pegar no pé” de um ou de outro. Pois me designou a levar uma parte de suas cinzas precisamente ao Estádio Beira Rio, estádio do meu maior rival!  Tínhamos nossas convicções de jamais visitar o estádio de futebol do nosso arquirrival... Ele por safadeza me deixou essa incumbência. Obrigatoriamente cumprida por mim! Não sei se do Eterno, as Almas nos veem aqui nesse Plano. Caso afirmativo, imagino ele rindo de mim as gargalhadas, enquanto eu, em pleno estádio do meu adversário, distribuindo suas derradeiras cinzas! Brincalhão safado, mesmo depois de morto!

Amigos! Ah os Amigos! Valem ouro e deixam uma saudade imensa quando se vão! Se eu tivesse autoridade para dar conselho, esse seria um dos primeiros: - "Tenha e mantenha muitos amigos. Amizade, eu reforço, com contato, presença física com direito ao abraço. É muito fria a amizade moderna restrita a um contato eletrônico sem o aperto entre corpos. Nada substitui o aperto de mão, o abraço e até um beijo!

Um telefonema, um whats é bom, mas dado a celeridade das nossas vidas, se torna muito pouco! Ouvi de um amigo, conterrâneo, R. Bernardi: “Tens visitado teus velhos?” Sim! A cada sessenta dias! “É pouco!” Respondeu convicto! Depois de perder meus pais, lhe dei plena razão, mas já era tarde!