211) É desconcertante o olhar dado a um cadeirante!
Sim. Fui cadeirante por algum tempo! Foi um período de meses enquanto convalescente por múltiplas fraturas em dois fêmures mais o calcanhar direito. Resultado de um acidente já tratado em crônicas aqui publicadas, historiando mais de trezentos saltos de para-quedas. Apesar do acidente tão importante, não foi ele a decretar o fim da atividade. Teimosamente após a recuperação física, voltei a saltar por mais uns trinta e poucos saltos!
Evidente é ser a hospitalização – por três semanas - um período de séria ameaça às crises de depressão. O velho e conhecido Prozac (nome comercial da fluoxetina) resolveu esse período de forma muito eficiente somado a um incrível apoio da Família e Amigos. Eles não me deixaram um dia sequer solitário a mergulhar na tristeza! Quarto do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre esteve sempre cheio de visitas a me alegrar o tempo todo! Parece ironia. Não é. Eu vivia momentos de grande alegria, tamanho o carinho sentido por tantos queridos visitantes!
Depois da alta um período longo de
recuperação em casa e mais adiante as primeiras movimentações fora da cama.
Depois da cadeira-de-rodas o andar com as muletas, bengalas etc. Obviamente
fisioterapia por mais de ano com “dedicação furiosa” de minha parte. Acreditava
– e merecia o crédito – na recuperação e o voltar a caminhar normalmente como
nós merecemos, sem dores e desequilíbrios!
Um dia, ainda em cadeira-de-rodas, pálido, magérrimo tomava um pouco de sol no pátio de casa, quando ao passar pelo bairro meu amigo Jorge, resolveu me visitar, entretanto, não sabia do acidente. Adentrou, acompanhado da minha cuidadora exclamando:
Por uns vinte metros Jorge caminhou em minha direção sorrindo com um “olhar exclamando” pena, dúvidas e um indescritível sentimento de dó! Mistura e confusão mental a imaginar um provável derrame cerebral e muitos outros fatos e coisas ruins! Quando respondi com voz vigorosa – pelo menos isso eu tinha – e depois ele confessou do “alívio” ao perceber, tudo não passava de danos físicos no meu corpo, nada no cérebro ou cabeça, como se diz popularmente! Afinal de contas, concertar ossos quebrados é só uma questão de boa reposição em seus lugares certos, fazer emendas e aguardar o tempo passar. “Só” isso!
Mais adiante, ainda em cadeira-de-rodas, sai a passear. Fui ao cinema, no Dado Bier comer um sushi e muitas vezes ao supermercado, sempre acompanhado. O doloroso, era ser alvo de olhares de desconhecidos inclusive, com dó, piedade. De fato, só vivenciando essa experiência se pode conhecer o que é isso... O olhar com pena de estranhos é tão doloroso a se tornar inesquecível! Sente-se uma vontade imensa de chamar a pessoa e explicar o acontecido: “Não se preocupe, eu vou ficar bem logo, acreditem! Mas não dá! Fica a marca da piedade no coração e não tem como se livrar disso, por anos!
O resumo da ópera, fica em ter certeza de tudo ser um aprendizado embora especialmente doloroso. É exatamente isso, a dor a construir uma aula de Vida. Certamente me tornei melhor, conheci a profundidade do ferimento ao ser atingidos pela humildade enquanto deficiente. Carrega-se no coração a convicção de quão fraco e vulnerável somos. A Existência é presa apenas por um fio tênue, frágil e tudo pode acontecer.
Então, “Carpen Diem”! Expressão em Latim dizendo colha o dia, mais comumente, aproveite o dia! Convite a manter ativo em nossa mente o viver com intensidade o presente e suas oportunidades. Temos um futuro incerto e uma Vida muito curta! Essa alerta do Carpen Diem, foi cunhada pelo poeta romano Horácio (século I a.C.) e é um chamado a desfrutar o agora sem adiar a felicidade e nem confiar cegamente no amanhã! Lembrete para não se preocupar demais com o futuro e focar no feito e desfrutado de hoje!
Quem tiver fé na existência do Criador,
seguramente viverá melhor mergulhando seus dias na esperança de Salvação e Vida
junto ao Eterno!
Toda a vez que ouço Pink Floyd, mais especificamente a música Time, me vem à memória esse teu período e os metais removidos que tu me mostrou, após terem cumprido a finalidade de auxiliar na calcificação das múltiplas fraturas.
ResponderExcluirAbreijo
Accioly
Fausto.
ResponderExcluirMinha irmã foi atropelada e arrastada, por um carro ao atravessar uma faixa de segurança. Ficou 4 meses na UTI
e ficou paraplegica.
O interessante é a valentia dela.
Pois jamais a vi reclamar!
Tenho muita admiração por ela.
Essas experiências muitas vezes nos deixam mais forte. Ainda bem! Tive um câncer de cólon há 18 anos atrás e por ter sido descoberto ligo não precisei de quimio ou rádio, mas tive que usar bolsa de colostomia por 3 meses antes de operar novamente. Não é uma coisa fácil, mas não deixei de ir a festas, cinemas e restaurantes. Algumas vezes tive percalços com a bolsa, mas nada que amigos e meu companheiro não pudessem me ajudar. Ânimo sempre!
ResponderExcluirMais um excelente testemunho! Ainda bem que estás firme e forte! Abração. Bida.
ResponderExcluirAdmiro essa força q te levou ao completo restabelecimento. Adorei tua "dedicação furiosa" e graças a ela podemos te ter conosco com saúde.
ResponderExcluirAbraços primo..
Fausto, penso que somente quem acredita em Deus, pode suportar estas adversidades da vida com confiança que dias melhores virão. Abraço
ResponderExcluirRicardo
Crônica ótima!
ResponderExcluirExcelente reflexão! Viver o agora e se possível viver feliz! Tudo passa! Importante manter a fé! Beijos primo
O apoio da familia e de cuidadores, ajudam no suporte emocional do cadeirante. A família é um pilar fundamental para ele enfrentar as barreiras diárias, garantindo que se sinta amado e incluído no sistema social.Dizem que a força vem de transformar a "dificuldade" em "possibilidade", - veja o caso da Flavia Cintra, e do Fernando Fernandes e Phil Collins hoje com 75 anos levando a vida com amor e cantando para seus amores.
ResponderExcluirFausto, a sua garra e determinação foram fundamentais para a sua recuperação e, claro, com o apoio dos familiares e amigos. Hoje, percebo que as pessoas estão mais solidárias. O meu marido tem problemas de locomoção e recebo muita ajuda de estranhos na rua. Ótima reflexão!
ResponderExcluirÉ o resultado de andar "fazendo arte" por aí. E ficar conhecido como o "maluco" que deu um salto de para-quedas sobre o Estádio Olímpico e errou o lugar da queda .
ResponderExcluirSaiu até há pouco num programa só te o estádio !! Abraços , amigo. Iara Peixoto
Fausto, cada vez te admiro mais e mais, obrigada por compartilhar tuas histórias de vida, como é bom gostar de viver, temos que viver intensamente cada momento, parabéns.
ResponderExcluirEsse é o Grande Fausto que conhecemos, baita ser humano do bem, um misto de italiano com alemão, mas com coração de brasileiro...a teimosia e a persistência certamente vem do lado alemão, sempre inovando, competindo, vencendo na vida...Parabéns Abraços (3)...
ResponderExcluirLembro dessa época, família e amigos é essencial para seguir em frente.
ResponderExcluirTida
Como sempre, Fausto, brilhante e profundo. Parabéns
ResponderExcluirA vida é um sopro, vamos aproveitar!
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