quarta-feira, 1 de abril de 2026

 221) Maior Clássico do Futebol do Mundo: “Rua de cima contra Rua de Baixo!”

 

Inigualável o prazer de jogar futebol enquanto criança, adolescente e adultos também, é claro! Muitos mantêm, como é conhecimento geral, ser essa profissão uma das mais rentáveis e sonhadas pelos jovens! Desejo irrefreável e não fica só nos limites do nosso Brasil, evidentemente.

Na infância e puberdade disputei muito no “esporte bretão.” No interior, não dispúnhamos sequer de um campo decente ou uma quadra minimamente adequada. Eram alguns campinhos de futebol de reduzida dimensão, crivados da espinhosa roseta [um horror, pois jogávamos de pés descalços!] e sem seus limites traçados de forma visível, na verdade nem eram traçados. Um terreno plano? Aí é exigir demais. Sem rede, nem goleira definida. O usual era a de colocarmos duas pedras a delimitar o espaço chamado de goleira e iniciava o jogo em forma de festa. Ou melhor, iniciava a discussão, a briga!

Briga? Jamais! Corrigindo, briga era o que não faltava! Os dois melhores de bola escolhiam na base do “par-ou-ímpar”, seus parceiros mais o Juiz. Juiz? Não tinha Juiz, imagina! O acordo era combinado antes da bola rolar: “É na consciência”! Nesse sistema arbitral existia uma enorme vantagem: - A ninguém era dado o direito de chamar o Juiz de ladrão! Sua simples inexistência assim determinava!

Os torneios e campeonatos eram de um vigor elogiável. As definições de limitação geográfica entre as forças esportivas eram assim mesmo, “rua de cima contra a rua de baixo!” O pessoal do centro contra os do outro lado da ponte. Tinha ainda a região atrás da estação férrea. Todo esse envolvimento só prova o quanto o futebol como esporte é elogiável e especialmente imprevisível. Grandes escretes sucumbem diante do inexpressivo e exatamente isso o torna tão atraente, despertando verdadeiras paixões entre torcedores quando muitos levam para além do limite do razoável, do bom senso! Acaba criando amor e ódio na mesma intensidade gerando tristeza da violência sem nexo.

Enquanto joguei, ou tentei jogar, a maior dificuldade sempre foi a de TER uma bola para o jogo. Graças a essa gloriosa posse conquistada - já escrevo como consegui - assumi o direito de criar um time, o Imperial Futebol Clube. Só os amigos participavam e não recrutava atleta bom de bola, caso contrário, eu seria o primeiro excluído e como eu tinha milagrosamente a bola, não podia justamente eu, ficar de fora. De jeito nenhum!

Como aconteceu a destacada situação de ser proprietário de uma bola de couro: - Numa sede abandonada do Guarani Futebol Clube, onde meu pai alugava ao extinto time, achei uma bola de vôlei velha, descosturada e sem câmara. A cor branca de seus gomos ainda restantes, embora descascados, me inspirou a semelhança da cor da bola de futebol de salão da época. E assim será, decidi!

No curtume do meu pai tinha um de seus trabalhadores, o Nino Pistoia, me ensinou a costurar os gomos de uma bola, um a um. Câmara? Resolvi melhor ainda, enchi-a com lã de pelego, também do curtume, deixando-a pesada a ponto de se assemelhar, mesmo grosseiramente à bola de futebol de salão e assim a materialização o mais novo time – nunca disputou campeonato com ninguém – estava lá para treinos intermináveis das tardes dos sábados e domingos. Jogava-se enquanto tinha luz do sol, mesmo com garoa fraca ou chuva forte! As mães não deviam saber onde estávamos...

Ao final da puberdade, os jogos se transferiram às atividades na escola. Aí, a “minha ruindade” não teve mais como ser disfarçada, havia competividade e sobrou inicialmente a de jogar no gol, posição sempre rejeitada, detestada. Essa tortura foi apenas no início, porque logo surgiu outro atleta, tão ruim quanto eu, disposto a competir e o desgraçado era bom e me tomou a posição no gol. Carreira precocemente suspensa!

Aos vinte anos, morando na Capital Porto Alegre, trabalhava em uma financeira quando fui convidado a um treino de futebol de salão, a competir no Campeonato Citadino dos Bancários. Aceitei e numa inspiração, nem imagino de onde veio, como goleiro fechei o gol! O time era da Finasul/Basulvest, eu era o titular no gol e fomos muito bem sucedidos! Evoluímos com vitórias expressivas e nos sagramos Vice-Campeões! (Guardo a rara medalha até hoje!) Só não fomos Campeões, não por minha culpa, mas pelo problema com um atacante adversário: - O cara era de uma crueldade sem medidas. Chutava numa potência inexplicável! Não lembro exatamente quantos, mas foram mais de seis gols sofridos, daqueles de não ver a cor da bola passar. Só ouvia o chiado da bola, parecia um torpedo passando e o som da rede se esticando atrás de mim! Foi gol...

Essa derradeira e exuberante derrota, o olhar dos colegas decepcionados, decretou o final definitivo da minha carreira de “Boleiro”! Depois disso, nem de brincadeira aceito convite, mesmo sendo apenas para “bater uma bolinha”! Tô fora! Prefiro alguns esportes menos competitivos: - Karatê ou Paraquedismo, por exemplo!

 

Porto Alegre, 02/abr/2026.

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