quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 233) Quantos Dentes eu Extrai Durante o Serviço Militar?

Prestei o Serviço Militar obrigatório em 1967, isso já escrevi algumas vezes nesse canal. Servi no Quarto Regimento de Cavalaria do Exército, cidade de Santiago do Boqueirão, distante quarenta e seis quilômetros da minha Terra Natal Jaguari, onde vivia até então.

Adorei, apesar de ter sido o ano com mais “trabalhos pesados” de toda minha vida, principalmente no período de Soldado. Promovido Cabo, tudo mudou e passei a curtir cada minuto da Caserna. Da solidariedade entre Soldados, da amizade comprometida e das saudáveis – nem sempre tão saudáveis – brincadeiras entre os menos espertos...

Ruim era o dia de domingo na ausência de atividade – mas pior quando de Serviço, com atividade – o dia se arrastava chato e muito longo. Não me queixo chorosamente, pois foram poucos naquele ano de não ir para casa. De Jaguari, retornava "muito bem alimentado" e com um saco de algodão branco enorme cheio de perfumadas bolachas caseiras feitas pela Eni, a querida Assistente Doméstica do meu Lar Materno!

O complicado do final de semana, foi ter nos primeiros meses expediente aos sábado pela manhã. Isso atrapalhava a fuga para casa, pois ônibus  à noite para só voltar no domingo à tarde. Com a pressão na contenção de gastos, uma passagem de ônibus para um período tão curto, tornava o final de semana caro, fora dos “padrões” de um Soldado.

Era no sábado à noite a grande curtição com meus amigos a validar a pequena viagem. Junto deles e com a Família, era onde tinha reconhecimento social e local para as festas tradicionais de um recém saído da puberdade. Na cidade do Quartel eu era apenas um “milico” pobre e com rasa expressão, isto é, entre as garotas não conseguia sequer “um olhar de piedade”. Lá, eu era ninguém!  Então durante o final de semana em Santiago, não punha o nariz para fora dos muros do Quartel. A alternativa era depressão (nessa época nem se conhecia esse termo...) ou uns bons goles de cachaça com butiá e outras frutas coloridas, sempre disponível nos armários dos colegas! Às vezes tínhamos companhia de um colega “rico” com a preciosidade propriedade de um rádio portátil! Alegria, música no alojamento!

Minha salvação para os finais de semanas com liberdade a viajar, se estabeleceu através do bom relacionamento com o Cabo assistente do Dentista do Quartel: Garantiu-me para plena alegria: - “Arranca um dente na quinta-feira, daí tu tens dois dias de dispensa!

Acreditando na prescrição de crime, envergonhado confesso: - O tal Cabo me “arrumou” por pelo menos uns cinco finais de semana estratégicos com atestados de extração de dentes! Sem medo de ser feliz, lá estava eu em plena quinta-feira indo para casa! Melhor nem contar para ninguém... Meu custo adicional era voltar com um garrafão de Vinho Jaguari a presentear ao querido Cabo de tão conveniente amizade!

Minha vontade ao aceitar essa estratégia, ficava por conta de estar deprimido em uma cidade – de vida social rica – e a obrigatoriedade de uso permanente da Farda de Passeio, quando fora do Quartel. Sinceramente, feia uma barbaridade e andar pela cidade “à Paisana", absurdamente arriscado, pois havia no Quartel General um Primeiro Tenente a comandar a PE (Polícia do Exército) absurdamente rigoroso. Caçava e prendia a quem ousasse não cumprir essa Regra. Época difícil, pois os outros jovens civis que competiam na “paquera”, andavam até com botinhas à moda Roberto Carlos! Então raríssimas vezes arrisquei. Quando o fiz, avistando aqueles capacetes verdes de borda branca, pânico letal!

Em oito de dezembro daquele ano, dei “Baixa” e voltei à vida civil e pasmem, com frequentes sonhos de ainda estar no Exército e confesso, com uma saudade imensa. Saudades da fraternidade, do companheirismo, da disciplina militar, onde o respeito mútuo sempre manteve sua hierarquia sólida e muito bem estruturada.

Muita coisa acontece na vida de todos nós, com alguns fatos ocasionando giros fortes nos rumos da nossa Caminhada Terrena. Hoje afirmo convicto, aconteceu de janeiro a dezembro daquele saudoso 1967, o período da mais expressiva e rica Escola de Vida da minha Existência! Repetiria feliz todos os dias, todos os passos naquela maravilhosa oportunidade de verdadeiro crescimento e maturação. Mesmo com suor e lágrimas, sofrendo aquela série de “extrações de dentes fake", era muito feliz!

 

Porto Alegre, 13/ago/2026.

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