238) E a Culinária de Acampamento?!
Fui iniciado na Rústica Culinária de Acampamento, no meio da ilha do Rio Jaguari, enquanto ainda adolescente, despertei uma verdadeira paixão por aquele prato, ou melhor, por aquela panela de ferro assentada sobre uma trempe também de ferro, mais uma "cambona" de água fervente, sob o fogo de lenha colhida ao redor do rudimentar acampamento na areia, cercado por árvores nativas com predominância ao “Salso Chorão” de sombra rala, mas acolhedora.
Local absolutamente sem recursos de conforto ou tecnologia, apetrechos como uma mesa, sequer cadeiras. Juntávamos uma molecada de uns quatro a cinco guris ao redor daquele “prato único”, onde por raríssimas vezes se tratava do tão desejado arroz com galinha. Raro porque a matéria prima – a galinha – não tínhamos acesso fácil, a menos de contarmos com algum corajoso piá do grupo a se dispor ao furto de uma "penosa viva", certamente de seus próprios pais... Caso contrário, e sempre era um “caso contrário”, recorríamos a carne de gado, carne de porco cortado em pequenos cubos e linguiça.
No Verão, frequentávamos aquela ilhar todos os dias, onde tinha o banho mais maravilhoso em águas claras de temperatura reconfortadora. Geralmente a alternativa declinava do caprichado arroz na panela, para simples espigas de milho verde assadas diretamente na brasa. O sabor e cheiro dessa maravilha, se irradiava por toda ilha – onde se juntavam centenas de Jaguarienses ao banho no rio – causando inveja declarada daquele lanche ao meio tarde. Cabe aqui sinceras, talvez tardias desculpas ao dono da lavoura de milho situada na outra margem do rio, um gentil agricultor a nos ceder involuntariamente a matéria prima daquela delícia suprema, as espigas de milho verde!
Passado o Verão, não frequentávamos mais a Ilha, por razões óbvias. A salvação estava por conta do galpão garagem da minha casa. Não tinha luz elétrica, os trabalhos eram iluminados por um lampião a querosene, exalando seu tradicional cheiro, mas sem afetar o apetite de ninguém. “Chão batido” onde se estacionavam uma Ford F1 e um caminhãozinho Opel, eu tirava-os para fora e reeditávamos o fogo de chão da ilha. Isso garantia espaço protegido para o resto do ano. Nem a chuva nos impedia... Muito antes pelo contrário, o barulho da chuva em um forro de zinco, tornava o recinto único!
No entanto, a dificuldade financeira não se abrandava, até mesmo para as alternativas de “exclusão galinácea” já citadas. Mas como é de conhecimento de todos, é justamente a dificuldade a desenvolver criatividade, qual seja para essa dolorosa situação? A milagrosa e barata salsicha! Lembro, nessa época havia da indústria uma lata maior com quinhentos gramas. Perfeito! Apesar de ser a alternativa mais barata disponível na Época, não era tão fácil como o de apenas pegar na prateleira ou do armário de casa de algum dos nossos leais – sempre os mesmos – comensais!
A alternativa de custo acessível, não encontrava resistência econômico financeira suficiente, graças a ter no grupo o Gordo, Luiz Emílio. Ele fazia visita estratégica ao armazém onde seu pai era sócio e obtinha, nem imagino como, uma dessas preciosas embalagens trazendo – curiosamente às escondidas – uma lata para elaboração do requintado jantar!
Tudo resolvido! Os jantares do arroz com salsicha não se deixavam espaçar por muito tempo, e como era bom, gostoso demais! A frequência, dependia da atitude do motivador dos encontros: Luiz Fernando> Vinha a mim e questionava:
- “Está na hora de fazeres um arroz com qualquer coisa!”
A solução era imediata, quase espontânea: - O "arroz com qualquer coisa" era disparado ao acionar o Gordo a nos disponibilizar a salsicha! E tudo se resolvia. Na sequência o Cauby solucionando a parte líquida do jantar. Como a dificuldade na “capacidade de compra” era a mesma, essa muitas vezes se resumia ao litrão de Pepsi ou até mesmo uma jarra de limonada! Como a prioridade era o da panela de ferro cheia, era só agradecimentos!
Até hoje com alguma frequência, mais
espaçada daquela época, faço para eu e Elaine aquele tradicional arroz
com salsicha. Na primeira garfada a volta ao passado de meio Século é
instantânea, maravilhosa! Fechando os olhos, me sinto na ilha. Vem à mente o ruído da água do rio na
cachoeira com nitidez! Até o cheiro da fumaça! Isso tudo me reforça a convicção de quão
bom é lembrar dos bons momentos do passado. Traz felicidade de
volta, mesmo por alguns momentos, afinal de contas, a Vida é construída por
momentos e ao elevar nossos pensamentos, as ações de hoje, nos retorna a
esses maravilhosos encontros com a felicidade da Juventude, com muita alegria!
Porto Alegre, 10/set/2026.
Bom Fausto. Como os gaúchinhos, lá em Catusaba ,interior de São Gabriel, dizem . Fazer um assado em uma " TRENPA"...
ResponderExcluirIvan.
Que belas lembranças! Achei sensacional a parte, “um gentil agricultor a nos ceder involuntariamente a matéria prima daquela delícia suprema, as espigas de milho verde!”
ResponderExcluirAbraço grande meu querido irmão. Molina
ResponderExcluirInteressante teu texto.Me fez recordar dos acampamentos ,no verão em noites de lua cheia.
ResponderExcluirOs procedimentos para a bóia eram muito parecidos aos de você .Só resta uma saudosa e gostosa lembrança
Percy
Que saudades , Fausto !! Eu me criei de molho no rio Jaguari o verão inteiro ! E também das galinhadas , principalmente com nossa turma do Colégio Comercial, diga-se de passagem a turma do footsal e
ResponderExcluirdo vôlei ,!! Teu irmão Sérgio era assíduo !!
Iara Peixoto
Bons momentos vividos na sua juventude e narrados com primor. Nada como reviver as aventuras prazerosas. Que delícia de lembranças culinárias. Deu água na boca!
ResponderExcluirEssas são as melhores lembranças, não? Amizades, natureza e uma comida simples mas saborosa... Indeléveis!
ResponderExcluirFausto
ResponderExcluirMais uma história que nos remete à infância. Quantas galinhas adquiridas da mesma forma, milho 🌽 do mesmo gentil agricultor, bebida fornecida pelo meu pai, sem seu conhecimento. Tudo ao som dos violões do Roni Denardi e do Joãozinho Bernardi.
Q delicia de recordações.. E tua narrativa me leva até sentir o cheiro dessas iguarias. Sorte de quem viveu uma juventude tão simples mas tão prazerosa. Esse Jaguari tem histórias hem?
ResponderExcluirA nossa infância foi obra de Deus, nossa bela Jaguari, era recheada de diversões sadias, o Balneário, no verão, Obelisco nas férias de Julho, festas Juninas, aniversários, reuniões dançantes nos clubes 7 e União, campeonatos de futebol na quadra da Igreja Matriz,bons filmes de Bang Bang nos matines d Domingos
ResponderExcluirBelas lembranças! Lembro bem daquelas latas de salchiça de 500 gramas. Era a que tinha sempre lá em casa onde éramos 7 irmãos. Medeiros
ResponderExcluirNão, a Mamma Nena fazia com salsicha qualquer coisa que aprendei na Itália. Também pude curtir o gosto. Está perto do coração. BIRA
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